Wednesday, October 04, 2006

II Edição do Ciclo Fio Solto. Na Vida dos Bonecos.

Reedita-se o ciclo Fio Solto integrado no 9.º Festival Nacional de Marionetas: Marionetas na Cidade, em parceria com os S.A. Marionetas. A 7.ª à 5.ª apresenta este ano um pequeno ciclo com um universo temático agora alargado aos bonecos volumétricos animados.
A mostra deste ano, apesar de sensivelmente mais curta (duas sessões em dois dias: 05 de Outubro e 12 de Outubro) ganha em diversidade e novidade. Diversidade desde logo nos formatos apresentados e que para além do cinema de marionetas e do cinema convencional, terá duas mostras de curtas de animação que englobará um leque variado de géneros que vão desde a evocação das sombras chinesas, à plasticina ou a manipulação e animação de volumes. Já a novidade consiste em duas vertentes.
Por um lado, a possibilidade de serem visionados em Alcobaça o que de melhor se tem feito em redor do vídeo de animação em Portugal e por outro, a oportunidade dada a jovens realizadores ainda em formação na área do cinema e dos audiovisuais, de fazer sessões públicas das suas obras. Realce-se a programação de quatro filmes de realizadores ligados à trupe Daltonic Bros. (reconhecido universo de artistas do vídeo independente, baseado nas figuras de João Pedro Gomes e Paulo Abreu) e a inclusão de outros 3 vídeos provenientes da ESAD onde se inclui a primeira apresentação pública do vídeoclip inspirado nos The Pixies do alcobacense Pedro Vicente.
No que toca às longas-metragens o programa centra-se, tal como no ano passado, nos universos paralelos ligado às marionetas. O mundo das marionetas estará excelentemente representado com a 2.ª obra do super mediatico Peter Jackson Feebles, Os Terríveis (premiado no FantasPorto). A evocação subliminar aos bonecos manipulados concretiza-se a partir da multipremiada obra de Spike Jonze Queres Ser John Malkovich?, onde um John Cuszak, marionetista, tenta ele próprio manipular e deambular pela cabeça do grande John Malkovich! A não perder!

O prometido é devido...

Tal como foi antevisto, quando da suspensão dos ciclos mensais em Abril de 2006, confirma-se uma nova edição do ciclo Fio Solto em parceria com as S. A. Marionetas e sua integração no 9.º Festival Nacional de Teatro de Marionetas: Marionetas na Cidade. Uma experiência positiva no ano passado que potencializou a sua reedição este ano agora com um âmbito mais alargado: a temática abrange a figura dos bonecos volumétricos animados. A participação em eventos especiais foi desde então uma das possibilidades de reaparição o que veio a concretizar-se agora, cinco meses depois do último ciclo organizado por esta equipa.Tínhamos assumido então em Abril que estaríamos de volta, de forma pontual, sempre que se criassem as condições que achamos necessárias para a divulgação da 7.ª Arte. Essas condições, ainda que momentaneamente, estão assim reunidas na adaptação do espaço do Auditório da Escola Adães Bermudes e Alcobaça voltará a ter, em dois dias, a possibilidade de acesso a uma programação alternativa de cinema de qualidade.

Thursday, April 27, 2006

Um ano...

Como é sabido, a 7.ª à 5.ª cumpriu recentemente um ano de programação de cinema alternativo em Alcobaça. Uma aventura que se iniciou com o objectivo claro de devolver à cidade um espaço exclusivamente dedicado a um tipo de oferta complementar à do cinema comercial. Era dada a oportunidade de criação de um espaço de exibição que se quis, desde início, intimista, propício à constituição de um núcleo de amantes do bom cinema. Hoje podemos dizer com segurança que esse desafio foi ganho! Tivemos bom cinema, constituiu-se um número seguro de público que se foi identificando com esta iniciativa e finalmente, atingiu-se um nível de interesse sobre o cinema no panorama cultural local e regional. Bases fundamentais para a edificação de um núcleo cinéfilo em Alcobaça. Partindo do lema “tentar o cinema” a organização desenvolveu uma programação contínua de ciclos temáticos de característica assumidamente pedagógica e de entretenimento. Um cinema projectado para o futuro.

A parte mais significativa do sucesso deste desafio prendeu-se com a própria adesão do público que em certos casos chegou mesmo a surpreender as melhores expectativas, desde logo, com o ciclo inaugural que esgotou. Bem contabilizados, tivemos ao longo do ano (Fevereiro de 2005 a Abril de 2006): 12 ciclos temáticos (apesar de ter funcionado durante 14 meses, havendo 2, por imperativos ligados à própria organização do Cine-Teatro, em que não foi possível produzir o evento); 46 sessões para 1400 espectadores! Foi concretizada igualmente uma parceria importante, como a organização do ciclo Fio Solto. Na Vida das Marionetas, com os S. A. Marionetas para o 8.º Festival Marionetas na Cidade. Uma experiência a repetir.

Durante este percurso inicial, queremos realçar o apoio logístico da autarquia (através do Pelouro da Cultura, em especial, do Cine-Teatro e da Biblioteca Municipal) bem como o pequeno rol de patrocinadores que contribuíram para a divulgação deste evento (Tipografia Alcobacense e Space), onde consta também a equipa de criativos da Velcro, associada a este projecto desde Julho de 2005.

Após esta primeira fase de experimentação, a 7.ª à 5.ª vai parar! Não por falta de ideias e iniciativa própria mas antes por razões, que apesar de estarem completamente fora do domínio da organização, condicionam a possibilidade de continuação. Por motivos inerentes à própria gestão e funcionamento do Cine-Teatro de Alcobaça, a 7.ª à 5.ª deixa de ter uma sala conveniente que assegure o regular desenvolvimento de um projecto nos moldes como tinha sido até aqui idealizado. Esta situação obriga ao estabelecimento de um período seguinte que será investido na reflexão e no estabelecimento de novas linhas de acção que irão passar pela participação em eventos especiais ou em manifestações pontuais ligadas à 7.ª Arte. Esta será, até se reunirem as condições logísticas necessárias ao reatamento de uma programação regular, a posição desta equipa de organização.

Neste momento, resta-nos agradecer à Câmara Municipal de Alcobaça ter-nos dado a todos a oportunidade de “viver” esta bela experiência. Igualmente, gostaríamos de estender os nossos agradecimentos a todos aqueles que colaboraram directa, indirecta, institucionalmente ou de forma particular com a organização dos ciclos de cinema. Por fim, mas não em último, transmitir o nosso obrigado ao público que foi preenchendo as sessões ao longo deste tempo e cuja assiduidade e persistência foram a base mais sólida deste projecto.

A todos bem hajam e o nosso sempre muito obrigado.
Uma coisa é certa. A 7.ª à 5.ª estará sempre disponível para dar mais cinema de qualidade em Alcobaça.

Já agora vejam sempre, quando e onde puderem, bom cinema. Viva a 7.ª Arte!

A organização:
[Alberto Guerreiro/António Lameiras/Milton Dias]

Friday, April 07, 2006

...

Friday, March 24, 2006

Abril | Ciclo "Ideais"

06_ABR:
Diários de Che Guevara de Walter Salles

13_ABR:
Os Sonhadores de Bernardo Bertolucci

20_ABR:
A Insustentável Leveza dos Ser de Philip Kaufman

27_ABR_Em_Órbita:
Ao Encontro de Fidel de Oliver Stone

Monday, March 20, 2006

Corre Lola Corre / Run Lola Run

Realizado por Tom Tykwer
Alemanha, 1998

Todos os dias a cada segundo podes tomar uma decisão que mudará para sempre a tua vida.
Manni (Moritz Bleibtreu), um estafeta de um grande gangster, está à espera da sua namorada, Lola (Franka Potente). Tem em mãos um transporte como tantos outros que fez até aquele dia. Porém, desta vez, a sua namorada está atrasada, e devido a vários golpes de azar, Manni perde o dinheiro. Lola terá de ir buscar Manni e no caminho arranjar os 100000 marcos que têm de entregar dentro de vinte minutos. Uma corrida pela cidade onde a mais pequena decisão poderá ser de vida ou de morte.

Friday, March 10, 2006

Colisão / Crash*

Realizado por Paul Haggis
EUA, 2005

'Crash' é uma película que segue o esquema de cruzamentos de filmes como 'Magnolia', de Paul Thomas Anderson, e que se foca na questão do racismo na cidade de Los Angeles. Escrito e realizado por Paul Haggis, o argumentista de 'Million Dollar Baby' (Óscar para Melhor Argumento 2005), este transformou-se rapidamente num dos mais aclamados filmes do ano.

Doze personagens insólitas cruzam-se nesta película mas o que será que têm em comum? Eles são um casal americano comum, um persa dono de uma loja, dois polícias, um africano, director de uma estação televisiva, um mexicano, dois ladrões de automóveis, um polícia a começar a carreira e um casal coreano de meia-idade.
À partida, estas pessoas partilham apenas o facto de viveram em Los Angeles, mas nas próximas 36 horas todos eles vão 'colidir' e estes serão forçados a relacionar-se.
Este drama urbano gira à volta das encruzilhadas inconstantes de um conjunto de personagens multi-étnico que luta para dominar os seus medos... Ousado e polémico, 'Crash' lança um olhar provocador e inflexível às complexidades da tolerância racial na América contemporânea.
De louvar o facto de o autor ter optado por não transmitir uma moral absoluta, optando pela posição politicamente correcta: a de que entre vítima e agressor, não existem respostas fáceis.
*Óscar 2006 para: Melhor Filme, Melhor Argumento Original e Melhor Montagem

Friday, March 03, 2006

21 Gramas

Realizado por: Alejandro González Iñárritu
EUA, 2003

Eles dizem que todos nós perdemos 21 gramas no exacto momento em que morremos... todos nós.

O peso de um punhado de moedas.
O peso de um chocolate.
O peso de um pequeno pássaro...


Em 21 Gramas, o peso que um corpo perde no momento da morte, cruzam-se três histórias, concorrendo para um final inevitável em que alguém perderá os seus vinte um gramas ao exalar o último suspiro, a derradeira morte anunciada desde o início do filme e que surge na senda de outras, pontuando o filme ao longo de um trajecto familiar a Iñárritu e a quantos apreciam o seu cinema musculado, dorido e desencantado.

Da sua cama de hospital e perdida toda a esperança, Paul Rivers (Sean Penn) relata-nos o que o levou até ali, numa espera conformada que apenas terminará no final do filme. Fala-nos do coração destruído pelo tabaco, da operação redentora, do desejo de descobrir o dador, do afastamento que se vai instalando entre si e a sua companheira Mary (Charlotte Gainsbourg) que acaba deixando-o e regressando à Europa natal.


Através do seu relato, conhecemos Jack Jordan (Benicio Del Toro), um ex-criminoso reabilitado e redimido pela Fé, em conflito com os seus tutores e discípulos, com a mulher (Melissa Leo) e os filhos, um homem cuja vida se irá cruzar com a de Paul pelas piores razões, apressando o fim deste e inflamando a sua alma com uma imensa e insolúvel culpa.


Cristina Peck (Naomi Watts) completa o triângulo, ao perder o marido e as filhas num acidente estúpido que lhe destruirá a vida e a precipitará nas vidas de Paul e Jack, embora por razões diversas e antagónicas.
É um círculo de violência, ódio, amor e morte que só abranda quando alguém tomba, enredando os personagens num emaranhado sem saída...

Monday, February 27, 2006

11:14 - Onze Horas e Catorze Minutos

Realizado por: Greg Marcks
Canadá, EUA, 2003
Às onze e catorze da noite, as vidas suburbanas de um motorista bêbado, uma adolescente aborrecida, um pai protector, um metálico preguiçoso e uma rapariga manipuladora entram em rota de colisão, originando uma série de inesperadas voltas e reviravoltas...

Friday, February 24, 2006

...

Março | Ciclo "Encruzilhadas"

02_MAR:
11:14 - Onze Horas e Catorze Minutos de Greg Marcks

09_MAR:
21 Gramas de Alejandro González Iñárritu

16_MAR:
Colisão de Paul Haggis

23_MAR_Em_Órbita:
Corre Lola Corre de Tom Tykwer

Monday, February 20, 2006

De Olhos Abertos

Realizado por: Alejandro Amenábar
Espanha, Itália, França, 1997

Por vezes, as aparências iludem. Mesmo de olhos abertos, podemos viver num pesadelo!
César tinha tudo a seu favor - encantador, rico e incrívelmente bem parecido. Mas, por vezes, as aparências iludem.
Na noite do seu 25º aniversário, César conhece Sofia, e pela primeira vez pensa ter encontrado a mulher ideal. Mas depois de deixar Sofia, César é abordado por Nuria, a namorada que abandonou na véspera.
Perturbada pela forma como fora tratada Nuria pede-lhe outra oportunidade, implorando-lhe que a deixe entrar no carro. Um erro que lhe vai ser fatal, já que com a fúria dos ciúmes, Nuria atira o carro para fora da estrada, matando-se e desfigurando o antes lindíssimo César.
Depois do acidente, fantasia e realidade começam a misturar-se. César acorda numa prisão psiquiátrica, onde está a ser avaliado por uma morte de que não se lembra. Com a ajuda de um psiquiatra, revive os acontecimentos que ocorreram após o despiste, tentando perceber como chegou àquele pesadelo.
Se ele se lembra de lhe tratarem do rosto, porque razão ainda usa uma máscara? Se Nuria morreu no acidente, como é que voltou a ter vida? Se Sofia era o seu verdadeiro amor, porque é que a matou? Está César a viver um sonho ou será que ficou louco?

Monday, February 13, 2006

Paris, Texas - o cinema poético de Wim Wenders

Realizado por: Wim Wenders
Reino Unido, França, Alemanha, EUA, 1984

Diz o célebre ditado que "uma imagem vale mais do que mil palavras" e o cinema é o território ideal para construir uma teia ficcional de sentidos e experimentar modelos narrativos que nem sempre se esgotam nas fórmulas lineares de um género. O realizador alemão Wim Wenders gosta de baralhar as coordenadas e arriscar no valor afectivo das imagens, usando-as como objecto de reflexão de outras problemáticas, como a família (caso de Paris, Texas), a música (como no documentário Buena Vista Social Club) ou o próprio cinema (visível em O Estado das Coisas).
Sob o sol ardente do deserto árido do Texas um homem caminha, sozinho, na imensidão da paisagem. Sabe que não pode voltar ao passado. Só lhe resta despedir-se, para sempre.

Drama familiar, Paris, Texas, centra-se na deambulação de um amnésico (Harry Dean Stanton) em busca das memórias de um amor antigo por uma bela mulher, a inesquecível Nastassja Kinski. O filme venceu a Palma d'Ouro do Festival de Cannes e é talvez o mais intenso exercício afectivo de Wenders, que culmina com uma longa cena passada numa cabina de uma loja de sexo, com os dois protagonistas separados por um vidro e a entenderem as repercussões do seu amor. Paris, Texas é um exercício de melancolia inesquecível que questiona os limites da identidade.

Tuesday, February 07, 2006

O Regresso do Laranja Mecânica

Um dos benefícios da ainda recente reabertura ao público do Cine-Teatro de Alcobaça foi a possibilidade de os cinéfilos alcobacenses terem voltado a poder assistir regularmente a espectáculos de cinema na sua cidade.
Além da programação comercial da sua sala principal, tem também durante este ano e pouco merecido particular atenção a pertinente programação paralela dos ciclos 7ª à 5ª, semanalmente apresentados no seu pequeno auditório.
Esses ciclos têm tido a honra e a virtude de apresentar em Alcobaça filmes menos comerciais, os chamados filmes de autor, que, contudo, têm também o seu público, que até nem é assim tão escasso…
Muitos dos filmes que têm sido apresentados nesses ciclos são bastante recentes e actuais, mas não têm também ali faltado marcantes filmes de outras épocas. E aqui recordo ter também assistido na antiga sala do nosso renovado Cine-Teatro, já há umas boas dezenas de anos, à projecção de filmes tão significativos como O Mundo a Seus Pés (de Orson Welles), Ivan, o Terrível (de Sergei Eisenstein), Easy Rider (de Dennis Hopper) ou, entre muitos outros, 2001-Odisseia no Espaço, o filme que me tornou fã de Stanley Kubrick para todo o sempre…
(...)
Laranja Mecânica é, aparentemente, um filme sobre a violência e a delinquência juvenil. Todavia, do que Kubrick nele nos fala é da violência psicológica e da delinquência do poder. Seja ele político, ou não… Este não é um filme normal. Antes pelo contrário. O chefe do gang juvenil frequenta bares onde apenas se bebe leite e a sua música preferida é a Nona Sinfonia de Beethoven.
Todavia, somos logo por si seduzidos na primeira cena: ouvindo a irresistível música electrónica que Wendy (então Walter) Carlos compôs para este genial Kubrick, enquanto o olhar simultaneamente maroto e provocador de Alex (interpretado pelo inesquecível Malcolm McDowell) nos enleia na sua rede de irónica maledicência.
Poucos segundos depois Laranja Mecânica arranca para a sua caleidoscópica espiral de brutalidade, humor negro e suprema qualidade cinematográfica, a um ritmo tão imparável que só conseguimos sossegar mesmo no fim. Quando este filme concebido a partir do não menos genial romance homónimo de Anthony Burgess chega simultaneamente ao céu e ao inferno! Seja lá isso o que for…

José Alberto Vasco

Monday, January 30, 2006

Laranja Mecânica

Realizado por: Stanley Kubrick
GB, 1971

Pontapear, agredir, roubar, cantar, dançar sapateado, violar.
Desordeiro de chapéu de côco, Alex (Malcolm McDowell) tem uma maneira muito particular de se divertir. E fá-lo à custa da desgraça dos outros. O trajecto de Alex desde punk amoral a respeitável cidadão, após uma lavagem ao cérebro, forma o arco dramático da visão futurista e de choque que Stanley Kubrick tem do romance de Anthony Burgess.
Imagens inesquecíveis, surpreendentes contrastes musicais, a fascinante linguagem usada por Alex e pelos seus parceiros - Kubrick molda todos estes elementos num todo esmagador. Altamente controverso quando estreou, Laranja Mecânica venceu o prémio da associação de Críticos de Cinema de Nova Iorque para Melhor Filme e Melhor Realizador e mereceu quatro nomeações para os Óscares, incluindo Melhor Filme.
O poder da sua arte é tal que ainda hoje nos seduz, nos choca e nos agarra por completo.

Friday, January 27, 2006

...

Fevereiro | Ciclo "7.ª/1 ANO

A 7.ª à 5.ª comemora, em Fevereiro, 1 ano de projecções de cinema de qualidade em Alcobaça e para assinalar este facto a organização decidiu auscultar as tendências do público.
A partir das escolhas de um inquérito aplicado, tendo em vista as suas preferências cinematográficas, a escolha do público acabou por recair na obra prima de Stanley Kubrick: Laranja Mecânica. As segundas escolhas foram para duas outras grandes obras: Paris, Texas de Wim Wenders e O Homem Elefante de David Lynch (filme que, por motivos de programação interna do Cine-Teatro, não poderemos exibir neste ciclo comemorativo).
Em órbita, apresenta-se a escolha da equipa de programação da 7.ª à 5.ª - De Olhos Abertos de Alejandro Amenábar. O critério seguido não privilegia o gosto pessoal dos membros do grupo, mas antes trata-se de uma opção colectiva por uma obra que os programadores consideram como exemplo marcante do paradigma da cinematografia contemporânea e de futuro.
02_02:
"Laranja Mecânica" de Stanley Kubrick
09_02:
Não há sessão
16_02:
"Paris, Texas" de Wim Wenders
Em órbita: a escolha do grupo 7.ª à 5.ª
23_02:
"De Olhos Abertos" de Alejandro Amenábar

Monday, January 23, 2006

Oldboy - Velho Amigo

Realizado por: Chan-Wook Park
Coreia do Sul, 2003
Dae-su é um homem casado e pai de uma filha. Um dia, por razões que desconhece, vê-se fechado numa cela de prisão. Com uma pequena televisão como única ligação ao mundo exterior, Dae-su descobre que a sua mulher foi assassinada.
15 anos depois é finalmente libertado e parte em busca da verdade.

Friday, January 20, 2006

A 7.ª informa

Na passada 5.ª feira (19 de Janeiro), durante a projecção do terceiro filme incluído no ciclo Ao Largo #2 o imponderável aconteceu.
Por motivo de uma avaria inesperada do equipamento de projecção, ao qual a organização é completamente alheia, tornou-se impossível cumprir com a sessão dedicada ao filme ‘Hotel Ruanda’, pelo qual a 7.ª à 5.ª e o Cine-Teatro de Alcobaça gostariam desde já pedir a compreensão do público presente.
Neste sentido, a organização gostaria de convidar os cinéfilos alcobacenses para uma reposição do mesmo filme no próximo dia 31 – excepcionalmente, neste caso, à 3.ª feira, às 21:30h – como forma de ver cumprido a programação delineada para o ciclo.

Muito obrigado e os nossos cumprimentos
a todos os cinéfilos

A organização

Friday, January 13, 2006

Hotel Ruanda

Realizado por: Terry George
Canadá, Reino Unido, Itália, África do Sul, 2004
No ano de 1994 o mundo assistiu às imagens vindas de um longínquo (nas suas mentes, não em distância) país africano, denominado Ruanda. As imagens eram de uma crueldade tão extrema que pareciam mais ficcionais do que verdadeiras. Seria possível que centenas de milhar de pessoas estivessem a ser mortas à catanada sem ninguém intervir? Certamente que não. Infelizmente era isso mesmo que se passava.


Esta é a história verídica de Paul Rusesabagina, o gerente de um hotel, que conseguiu salvar não só a família mas também os milhares de refugiados que aí se abrigaram...



Ver Hotel Ruanda é levar um murro no estômago. É lembrar-nos que vivemos num mundo de egoísmo onde não se dá nada sem esperar algo em troca. Onde nem todos são iguais. E onde atrocidades como as que se viveram no Ruanda podem acontecer em qualquer lado, porque simplesmente as pessoas não se interessam. Ver Hotel Ruanda é ver a nossa vergonha espelhada nas faces de quem tanto sofreu...

Monday, January 09, 2006

Sideways

Realizado por Alexander Payne
EUA, Hungria, 2004

Miles (Giamatti) é um professor de inglês, apreciador de vinhos, divorciado, que espera a qualquer momento a sua oportunidade de editar um livro. O melhor amigo de Miles, Jack (Haden Church) é um actor reduzido a fazer voz-off em anúncios, e está prestes a casar.

Para celebrar essa última semana de liberdade, Miles leva Jack numa viagem pela região vinícola da Califórnia. Mas Jack está mais interessado nos prazeres da carne que nos da bebida e nesta viagem conhece Stephanie, com quem inicia uma atribulada relação. Miles, por sua vez, ainda emocionalmente preso à sua ex-mulher, vê a possibilidade de retornar à superfície com Maya (Madsen), especialmente seduzido pela forma como ela aprecia e entende o vinho.

Sideways é um road movie que marca o ritual de passagem à idade adulta, entendida como a altura em que aprendemos a enfrentar os nossos medos, a aceitarmos os outros e a nós mesmos, e em que descobrimos o que queremos da vida. Como um vinho que atinge a maturidade, é na meia-idade que estamos prontos a ser abertos e bebidos. Ou melhor, a abrirmo-nos e a beber a vida.

Sideways flui com os desejos e necessidades das personagens, sem querer provar nada, sem querer confrontá-los com os seus erros ou redimi-los dos mesmos. Este filme tocará quem já se tenha sentido frustrado ou olhado o largo abismo entre a montanha das suas ambições e o fundo vale da sua realidade.

Monday, January 02, 2006

Mar Adentro

Realizado por Alejandro Amenábar
Espanha, 2004

MAR ADENTRO é um filme belo, inteligente, arriscado e narrativamente muito bem construído. Confirma o talento de Alejandro Amenábar, que pela primeira vez faz um filme sobre seres humanos verdadeiros e sobre um tema social de enorme importância: a eutanásia. Amenábar recupera o caso de Ramón Sampedro, marinheiro que sofreu um acidente aos 25 anos e ficou condenado a viver imóvel numa cama (“Sou apenas uma cabeça agarrada a um corpo morto”), dependendo da generosidade e atenção dos seus familiares. Ramón quis acabar com esse suplício (“Para mim, esses metros necessários para chegar até a ti e poder tocar-te são uma viagem impossível, uma quimera, um sonho! Por isso quero morrer”).

Lutando por uma morte digna, luta nos tribunais, publica um livro que defende a eutanásia, aparece na televisão, mas só com a ajuda de uns amigos anónimos consegue beber a dose de cianeto necessária. Filma o momento da sua morte para que fique como testemunho da sua luta: “Considero que viver é um direito, não uma obrigação, como foi para mim, obrigado a suportar esta situação penosa durante 29 anos, quatro meses e alguns dias. Passado este tempo, fazendo um balanço do caminho recorrido não vejo os momentos de felicidade”. (...)

Amenábar e Mateo Gil teceram um filme apaixonante em que a emoção convive com o humor do próprio Ramón Sampedro. Sem fugir do fio condutor principal, souberam enriquecer a narrativa com pinceladas de uma vitalidade tão contagiosa que o espectador alterna entre o sorriso e a lágrima, desfrutando de cada minucioso detalhe. (...)

Todos os actores são admiráveis, magníficos, começando por Javier Bardem, que realiza um dos seus trabalhos mais difíceis e brilhantes, desde a composição física à pronúncia galega, continuando com Lola Dueñas, a vizinha amiga, Mabel Rivera, a cunhada (de onde saiu este assombro de actriz?), Joan Dalmau, o padre, Celso Bugallo, o irmão, Tamar Novas, o sobrinho, Bélen Rueda, a advogada, José María Pou... (...)

Belíssimo. Excepcional. Um filme imprescindível.
in El País

...

Janeiro | Ciclo "Ao Largo #2"

Neste início de 2006, começamos com uma reedição do ciclo "Ao Largo", que tanto sucesso teve o ano passado, com a exibição de uma eleição de filmes que escaparam ao circuito de cinema comercial local. O reconhecimento público que em 2005 estes filmes mereceram por parte da crítica e do público levam a que possam agora ser vistos pelos cinéfilos mais aguerridos. Nesta selecção foi possível reunir 4 longas metragens contextualizando diferentes pontos do mundo que actualmente representam, em certa medida, outras tantas vertentes da globalização da produção cinematográfica: Europa, América do Norte, África e Ásia.
05_01:
"Mar Adentro" de Alejandro Amenábar
12_01:
"Sideways" de Alexander Payne
19_01:
"Hotel Ruanda" de Terry George
26_01:
"Oldboy - Velho Amigo" de Chan-Wook Park

Tuesday, December 27, 2005

A Sede do Mal

Realizado por Orson Welles
EUA, 1958

Um filme negro que nos dá um retrato cru dos meandros da corrupção e das imputações morais que daí advêm, na pessoa de Hank Quinlan. Hank é um polícia corrupto que envolve um jovem mexicano num intricado enredo criminoso. Charlton Heston é Ramon Vargas, um honesto agente do departamento mexicano da luta contra o tráfico de droga cujos movimentos colidem com os dúbios interesses de Hank. Uma obra empolgante em ambiente visual e sonoro intenso que conta com um luxuoso elenco secundário composto por Janet Leigh - a indiscreta mulher de Ramon -, Akin Tamiroff - o líder traficante -, Zsa Zsa Gabor e Marlene Dietrich - a enigmática cigana.

Wednesday, December 21, 2005

A Dama de Xangai

Realizado por Orson Welles
EUA, 1948

Crimes desconcertantes, fascinantes reviravoltas na história e um notável trabalho de câmara contribuem para este clássico, escrito, realizado e interpretado por Orson Welles.

Welles interpreta o papel de um homem inocente, contratado para trabalhar no iate do marido de uma mulher fatal (Rita Hayworth), que se vê envolvido numa perigosa teia de intriga e morte.

Sujeito a uma grande controvérsia e escândalo após a sua estreia, A Dama de Xangai chocou os espectadores de 1948 ao apresentar Hayworth com o seu flamejante cabelo ruivo cortado e pintado de louro, cor de champanhe.

Cinquenta anos mais tarde, A Dama de Xangai é considerado um Welles de qualidade superior, com o seu famoso final na sala dos espelhos saudado como uma das sequências mais extraordinárias da história do cinema.

Wednesday, December 14, 2005

O Mundo a Seus Pés / Citizen Kane

Realizado por Orson Welles
EUA, 1941
O Mundo a Seus Pés/ Citizen Kane" (1941), a primeira obra (e obra-prima absoluta) de Orson Welles (1915-1985), eterno vencedor das listas cíclicas de melhores filmes de todos os tempos. A história do magnata Charles Foster Kane (uma figura inspirada em William Randolph Hearst) e do enigma de "Rosebud" é um dos momentos mais marcantes da história da 7a Arte, salto qualitativo que revolucionou a linguagem cinematográfica, quer pela sublimação de técnicas anteriores - como os fundidos -, quer pelo avanço, em apoteose, de matéria nova (os planos- sequência, por exemplo).
Um clássico que revolucionou a indústria artística, nos seus reflexos de testemunho e de onirismo. A partir dele, nada se adiantou - sobre os desígnios do poder, a influência dos meios de comunicaçao, a vagabundagem visionária, os mistérios e os fantasmas da infância...

Tuesday, December 06, 2005

Orson Welles Sells His Soul to the Devil

por Jay Bushman

7ª. à 5.ª continua...

Já lá vai quase um ano que a 7.ª à 5.ª, em estreita ligação com a autarquia e tendo como ponto de partida o Cine-Teatro de Alcobaça, se tem vindo a afirmar como um espaço alternativo ao circuito comercial comunicando outras tendências e sentimentos em redor do cinema. Como um pólo seguro de animação de ciclos temáticos, com uma expressão de característica assumidamente pedagógica e de entretinimento, esta iniciativa está para continuar e durar, iniciando uma nova fase no início do ano de 2006, precisamente, quando em Fevereiro completar um ano de existência.

Ao longo do seu processo de evolução natural foram introduzidas algumas novas mais-valias das quais se destaca, desde já, a integração de uma equipa de colaboradores fixos na área do design de comunicação - pela arte e criatividade da tripla alcobacense Davide Silva, Joel Jerónimo e Pedro Rebelo (Velcro Graphic Design) - cujo contributo se tem demonstrado fundamental na requalificação da própria imagem da 7.ª à 5.ª , bem visível ao nível do “novo” grafismo dos cartazes ou na concepção visual do blog. De salientar, igualmente, a ampliação da equipa organizadora e programadora integrando também ela mais um elemento (António Lameiras).

Em termos de programação, prevêem-se novidades a partir de Fevereiro de 2006, começando desde logo com a intenção de introdução de novos formatos ao nível da divulgação e difusão dos ciclos e com a possibilidade de integração de mais colaborações quer a nível institucional como individual. Até lá, o ano acaba da melhor maneira com um ciclo dedicado a um dos grandes mestres do cinema: Orson Welles. No início de 2006, haverá espaço ainda para uma reedição do ciclo “Ao Largo”, que tanto sucesso teve em 2005, permitindo a exibição de uma selecção de filmes emblemáticos estreados no corrente ano e que escapando ao circuito de cinema comercial local podem agora ser vistos pelos cinéfilos de Alcobaça e arredores.

A 7.ª à 5.ª continuará deste modo a pugnar em Alcobaça por uma acção que passa pelo estímulo do gosto, contemplação, reflexão e debate em torno da 7.ª Arte e por uma maior aderência do público e da comunidade ao universo do cinema de qualidade.
[alberto guerreiro, antónio lameiras, milton dias]

Friday, November 25, 2005

...

Dezembro | Ciclo "Welles - à sombra do mito"

15_12:
"O Mundo a Seus Pés" de Orson Welles

22_12:
"A Dama de Xangai" de Orson Welles

29_12:
"A Sede do Mal" de Orson Welles

Monday, November 21, 2005

Em Órbita: "Carmen" ou o amor louco por uma espanhola

Realizado por Vicente Aranda
Espanha, Grã-Bretanha, Itália, 2003
Carmen (Paz Vega) é uma espanhola que tem o dom de conseguir tudo o que pretende dos homens, principalmente do sargento José, que, devido a paixão, acaba por transformar por completo a sua vida.
Prosper Mérimée, um escritor francês, é a testemunha da história entre a bela e enigmática Carmen e o sargento José. Devido a uma intensa paixão, a espanhola consegue que o seu amante faça tudo o que quer, inclusive matar. «Carmen» é, antes de tduo, um filme de fatalidade, ciúme, paixão e sangue.

Monday, November 14, 2005

Fausto 5.0

Realizado por Isidro Ortiz, Alex Ollé e Carlos Padrissa
Espanha, 2001

A caminho de uma convenção de médicos, o Dr. Fausto encontra um homem que afirma que o doutor lhe removeu o estômago oito anos antes. Contra toda a lógica, ainda está vivo. O homem promete realizar todos os desejos de Fausto e a linha entre a realidade e a ficção começa a desvanecer.
Se há desejos que se convertem em pesadelo, o mito de Fausto e da aspiração à vida eterna, pode bem ser um deles. Porque não é em vão que se vende a alma ao Diabo, mesmo que em troca da imortalidade.
Nota: Um dos filmes europeus mais premiados dos últimos anos: Méliès d´Or 2002 – Melhor Filme Europeu de Cinema Fantástico; Prémio Goya (Prémios do Cinema Espanhol) Melhor Actor; Prémio Raven de Prata do Festival Internacional de Cinema Fantástico de Bruxelas; Grande Prémio do Festival Europeu de Cinema da Finlândia (Espoo); Melhor Actor e Melhor Filme da Secção Oficial Cinema Fantástico, do Festival Internacional de Cinema do Porto – Fantasporto 2002.
Filme encarado como o mito de Fausto reinventado, tendo como particularidade a inclusão, na direcção, de dois membros da companhia catalã, La Furia Dels Baus; participação essa facilmente reconhecível na própria estética do filme.

Monday, November 07, 2005

Às Segundas ao Sol

Realizado por Fernando Léon de Aranoa
Espanha, 2002

Uma cidade portuária no Norte, que há muito tempo voltou as costas ao campo e que se rodeou de indústrias que a fizeram crescer desproporcionadamente, que alimentaram a imigração e desenharam um horizonte de chaminés, de esperanças, de futuros desenraizados.


Um grupo de homens todos os dias percorre as suas ruas, procurando as saídas de emergência.

Trapezistas de fim de mês, e de início de mês também, trapezistas sem rede, sem público, sem palmas no final, que caminham diariamente pela corda bamba do trabalho precário, que aguentam a sua existência com andaimes de esperança e que se refugiam nas suas poucas alegrias, como se o naufrágio de que tentam salvar-se diariamente não fosse o seu, enquanto falam das suas coisas e se riem, de tudo e de nada em especial, esperançosos, tranquilos, na manhã de uma segunda-feira ao sol.

Mais info: aqui

Friday, October 28, 2005

Dou-te os Meus Olhos

Realizado por Icíar Bollaín
Espanha, 2003

Filme sobre a violência doméstica, é a história de uma mulher, Pilar, que, numa noite de Inverno foge de casa. Consigo, leva somente o filho e umas quantas coisas. Pilar sabe que o marido vai procurá-la. Ela é tudo para ele, é o seu sol. E ele diz que foi ela que lhe deu os seus olhos. Ao longo do filme, as personagens vão rescrevendo este livro de família no qual está escrito quem é quem e quem deve fazer o quê, mas onde também todos os conceitos estão errados – onde diz lar lê-se inferno, onde diz amor lê-se dor e quem promete protecção só oferece terror.

Tuesday, October 25, 2005

...


Friday, October 21, 2005

Novembro | Ciclo "Para Além de Almodóvar - o outro cinema de autor espanhol"

03_11:
"Dou-te os Meus Olhos" de Icíar Bollain

10_11:
"Às Segundas ao Sol" de Fernando Léon de Aranoa

17_11:
"Fausto 5.0" de Isidro Ortiz, Alex Ollé e Carlos Padrissa


24_11 - Em Órbita (sessões especiais da 7.ª à 5.ª):
"Carmen" de Vicente Aranda

Wednesday, October 19, 2005

Notas de Kitano

As inspirações

“Quando ainda era um aspirante a actor em Asakusa (um bairro popular de Tóquio) vi, um dia, um homem e uma mulher unidos um ao outro por uma corda. Os moradores do bairro chamavam-lhes "os mendigos errantes". Havia uma série de rumores sobre o assunto, mas ninguém sabia verdadeiramente como é que eles se tinham tornado vagabundos. A visão destes dois mendigos errantes ficou gravada no meu espírito e sempre quis realizar um filme com personagens como eles. Decidi ligar esta história com duas outras. A ideia de cada história surgiu a partir de coisas que vi e ouvi no passado, as histórias típicas dos japoneses.”

Fazer escolhas

”Se for objectivo, posso afirmar que todas as personagens são muito egoístas. "Fazer uma escolha" significa que à partida temos duas opções. Mas em DOLLS todos os protagonistas estão possuídos pelo seu próprio egoísmo e cada um deles tem a sua pequena ideia do caminho que querem seguir e que atitude têm de assumir em consequência disso. Eles não fazem realmente escolhas porque são incapazes de ver outras soluções. Nenhum dos acontecimentos do filme poderia acontecer se as personagens fossem suficientemente equilibradas para "fazer escolhas". Sendo objectivo, as personagens podem parecer estúpidas, mas elas próprias não se vêem seguramente desta forma.”

As paisagens

”Filmei paisagens absolutamente magníficas, mas queria que tivessem uma certa crueldade. Algumas são de uma beleza extrema como se estivessem à beira da morte, como as flores de cerejeira totalmente abertas no último minuto antes de caírem ou as folhas de ácer que se vestem com as mais belas cores antes de secarem e caírem. Esta crueldade subentendida pode ser aumentada pela presença de personagens à beira da morte... Quando filmo o mar, muito luminoso no Verão, prefiro ter lá um homem velho, abatido pela vida, por exemplo um patrão que acabou de ir à falência, que pensa em suicidar-se ao olhar o mar, em vez de uma família feliz que está a fazer um piquenique na praia. Ou quando filmo um cerejal, prefiro ter lá um soldado da Segunda Guerra Mundial em vez de um grupo de amigos que o contemplam. Poderia ilustrar o que cada imagem representa, mas também é importante não o fazer. Se virem DOLLS e disserem: "Oh, que imagens tão bonitas", ficarei contente. Dito isto, não me importo que procurem um simbolismo nas cerejeiras em flor, no mar de Verão ou nas folhas vermelhas do Outono.”

Tuesday, October 18, 2005

O Bunraku

DOLLS homenageia a beleza do Bunraku com um excerto de uma representação do Teatro Nacional de Tóquio. A peça interpretada é a história dos amantes malditos de Monzaemon Chikamutsu, Meido No Hikyaku (O Mensageiro dos Infernos).

O teatro de marionetas Bunraku faz parte dos três géneros teatrais principais do Japão, juntamente como Kabuki e o Noh.

A intensidade dramática do Bunraku depende da perfeita organização de três elementos: as marionetas, a narração e a música. Cada marioneta é manobrada por três homens (têm geralmente um metro de altura, são feitas em madeira e pensam entre os 5 e os 20 quilos). Uma perfeita simbiose dos três manipuladores de marionetas é fundamental para dar vida à marioneta. As regras, muito estritas, devem ser respeitadas e nenhum manipulador pode representar independentemente.

Os manipuladores estão em palco, em frente ao público. O principal manipulador aparece de rosto descoberto enquanto os outros são "invisíveis" sob um capuz negro, mostrando desta forma que a marioneta é o actor principal.

Num estrado à direita do palco, o narrador (tayu) recita o texto épico e poético (joruri). Não só conta a história, mas faz também a voz de canta marioneta: mulheres, homens, crianças. Interlúdios e o acompanhamento musical são assegurados por um tocador de shamisen, um instrumento antigo com três cordas.

A história do Bunraku começou no século XVI e popularizou-se no século XVII. Desde 1966 que o Teatro Nacional de Tóquio acolheu o Bunraku. Em 1985, o Teatro Nacional Bunraku foi criado em Osaka. Para além das representações anuais nestas duas cidades, espectáculos itinerantes fizeram o público internacional descobrir o Bunraku.

Apesar do seu sucesso, o envelhecimento dos técnicos (costureiros, fabricantes de marionetas,...) e a falta de pessoas para os substituir representam um problema para o futuro desta arte com mais de 300 anos.

Monday, October 17, 2005

Em Órbita do Fio Solto: Dolls

Realizado por Takeshi Kitano
Japão, 2002

DOLLS reagrupa três histórias de amor inspiradas no Bunraku, teatro de marionetas japonês.

Na primeira história, Matsumoto e Sawako são um casal feliz, mas as pressões das respectivas famílias obrigam-nos a escolher um destino trágico. Para proteger Sawako, Matsumoto liga-se a ela para sempre, unindo os corpos com uma faixa vermelha. Erram sem destino. Procuram aquilo que esqueceram. Uma viagem que vai durar o tempo de quatro estações.

Na segunda história, Hiro, um yakuza, regressa a um parque onde costumava encontrar a namorada. Trinta anos antes, era pobre e viu-se obrigado a separar-se da bela rapariga para abraçar o mundo do crime.

Na terceira história, Hakuma, cujo rosto está coberto com faixas, passa muito tempo a olhar o mar. Pouco tempo antes, ela era uma grande estrela da música que passava a vida a dar autógrafos e a aparecer na televisão. Nukui é o seu maior fã e está disposto a prová-lo.

Três histórias inspiradas nas emoções eternas do teatro Bunraku.

Três histórias delicadamente enlaçadas pela beleza da tristeza.

Três histórias de amor imortal.


Monday, October 10, 2005

Muppets

Realizado por Jim Henson

Os Marretas, simpáticos bonecos que fizeram as delícias de todos os que hoje têm mais de 20 anos, estão de volta! As personagens, originalmente baptizadas como “The Muppets”, são as estrelas principais desta divertida sessão.

Dopamina (antestreia nacional)

Curta-metragem de Fábio Ribeiro

É a história de um homem que ao ser alienado pela sociedade devido a uma suposta condição clínica, é consumido pelas drogas e pela revolta até que finalmente quebra e comete a verdadeira loucura. O filme retrata-o a reviver na sua mente as memórias e sentimentos fragmentários mais importantes desse período da sua vida, sempre com um toque de loucura.

Wednesday, October 05, 2005

Team America - Polícia Mundial

Realizado por Trey Parker

EUA, 2004


Team America, uma força internacional destinada a manter a estabilidade global, descobre que um ditador sedente de poder está a fornecer armas de destruição maciça a terroristas. Os heróis embarcam uma incrível missão para, naturalmente, salvar o mundo. O resto é indescritível, ou não fosse o filme da autoria dos criadores de «South Park»...

Tuesday, October 04, 2005

...

Monday, October 03, 2005

8.º Festival Nacional de Teatro de Marionetas

Outubro | Ciclo “Fio Solto. Na Vida das Marionetas”

Integrado na 8.ª edição do Festival Marionetas na Cidade, em parceria com os S.A. Marionetas, a 7.ª à 5.ª apresenta um pequeno ciclo totalmente dedicado ao universo do teatro de marionetas. Quatro propostas de ficção, nacional e estrangeira, sob o formato de curta e longa-metragem, preenchem uma mostra cinéfila pouco convencional que vai desde o registo mais mediático até ao mais intimista e artístico. É oportunidade ainda para visualizar a mais recente produção nacional do género com a exibição de “Dopamina” de Fábio Ribeiro e que apresenta a particularidade de ter José Gil (S.A. Marionetas) na manipulação das marionetas utilizadas na curta.

06_10:
"Team América – Polícia Mundial" de Trey Parker.


13_10:
"Dopamina" de curta-metragem de Fábio Ribeiro


Em órbita (sessões especiais da 7.ª à 5.ª)

20_10:
"Dolls" de Takeshi Kitano

Monday, September 26, 2005

Em Órbita do 9.11 - Terra da Abundância

Realizado por Wim Wenders

EUA, 2004

Paul é um veterano de guerra que sofre de paranóia. Após o 11 de Setembro, convence-se que a América está em guerra e começa a patrulhar as ruas de Los Angeles.Lana regressa aos EUA numa missão católica de apoio aos sem-abrigo...e para encontrar Paul, o seu tio.

Apesar das diferenças entre os dois, o assassinato de um sem-abrigo paquistanês, que testemunham involuntariamente, vai aproximá-los...

Monday, September 19, 2005

Persona Non Grata

Realizado por Oliver Stone

EUA, França, Espanha, 2003, Doc.

Nos dezoitos meses que se seguiram ao fracasso da tentativa de estabelecer a paz permanente, em Camp David, no ano 2000… israelitas e palestinianos mergulharam numa espiral de violência aparentemente impossível de deter.. Ambos milhares sofreram milhares de baixas.

Este é um testemunho cru, isto é, não há grandes considerações sobre o que antecedeu a actual situação, nem os cenários possíveis, Stone centra-se no dia-a-dia de cidades como Ramalah e a posição oficial de cada uma das partes intervenientes. O documentário tem como protagonistas antigos primeiros-ministros israelitas, Shimon Peres, Ehud Barak e Benjamin Netanayu, os diplomatas europeus, Miguel Maratinas e Christian Jereut, Hasan Yosef, porta-voz do Hamas, membros da Brigada de Mártires Al Aqsa, o historiador Meir Pail e o ministro de segunaça pública de Israel, Gideon Ezra. A figura de Yasser Arafat é presença constante ao longo do documentário, pois Stone mostra-nos as dificuldades em estabelecer contacto com ele e a única vez que se encontra com ele, é para figurar ao lado de outros artistas, pintores e escritores, como o português José Saramago.

Este documento fica marcado por ter sido realizado aquando do massacre de Pasadena, onde morrem 28 israelitas em função de um atentado suicida, nos dias seguintes assiste-se à resposta israelita com a destruição do quartel-general de Arafat.

“Persona Non Grata” é acima de tudo um conversa frente a frente com as pessoas que tiveram ou têm capacidade para solucionar o problema ou não…

Monday, September 12, 2005

Fahrenheit 9/11 ou Mooretainment

Realizado por Michael Moore
EUA, 2004, Doc.

Michael Moore já não é apenas “aquele tipo gordo que fez um filme assim e assado sobre uma escola”. Moore é já o realizador de intervenção, o oscarizado, o vencedor de Cannes. O eleito de Tarantino. O anti-Bush. E Moore não está de regresso para procurar provas ou verdades, mas simplesmente para opinar sobre a América (uma vez mais), os seus líderes e o poder global. Goste-se ou não. Concorde-se ou não. Isto não ‘entertainment’ nem é Documentário. Nem é também Entertainmentary. Chamemos-lhe talvez, e mais ajustadamente: Mooretainment.



Polémico vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes 2004, Fahrenheit 9/11 é um documentário - no qual Michael Moore analisa a actuação da administração de George W. Bush depois dos trágicos acontecimentos de 11 de Setembro - "mockumentary" (filme de ficção, muitas vezes cómico e de paródia, apresentado como um documentário) ou pura propaganda, consoante a opinião.

Wednesday, September 07, 2005

O teatro do bem e do mal

Na luta do Bem contra o Mal, é sempre o povo que apanha as favas. Os terroristas mataram trabalhadores de sessenta países em Nova Iorque e Washington, em nome do Bem contra o Mal. E em nome do Bem contra o Mal, o Presidente George Bush jurou vingança: “Vamos eliminar o Mal deste mundo”, anunciou.

Eliminar o Mal? O que seria do Bem sem o Mal? Não são só os fanáticos religiosos que precisam de inimigos para justificar a sua existência. Os bons e os maus, os maus e os bons: os actores trocam de máscaras, os heróis tornam-se monstros e os monstros heróis, segundo as exigências daqueles que escrevem o drama.

Não há nada de novo nisto. O cientista alemão Werner Von Braun foi mau quando inventou os foguetes V-2 que Hitler lançou sobre Londres, mas passou a ser um bom no dia em que começou a dirigir o Império do Mal. Nos anos da Guerra Fria, John Steinbeck escreveu: “Pode ser que toda a gente precise de russos. Aposto que até na Rússia eles precisam de russos. Talvez lhes chamem lá americanos”. Depois os russos tornaram-se os bons. Hoje, Vladimir Putine diz também:”O Mal deve ser punido”.

Saddam Hussein era bom, assim como as armas químicas que utilizava contra os iranianos e os curdos. Depois, passou a ser mau. Passou a chamar-se Satã Hussein quando os Estados Unidos, que acabavam de invadir o Panamá, invadiram o Iraque porque o Iraque tinha invadido o Kowait. Bush pai encarregou-se desta guerra contra o Mal. Com o espírito humanitário e pleno de compaixão que caracteriza a sua família, matou mais de cem mil iraquianos, na sua maioria civis.

Satã Hussein continua no seu posto, mas este inimigo número um perdeu o lugar e já só é número dois. A praga do mundo chama-se agora Osama Bin Laden. A CIA ensinou-lhe tudo o que ele sabe em matéria de terrorismo: Bin Laden, amado e armado pelo governo dos Estados Unidos, era um dos principais guerreiros da liberdade contra o comunismo no Afeganistão.

Bush pai ocupava a vice-presidência quando o Presidente Reagan declarou que estes heróis eram “o equivalente moral dos pais fundadores da América”. Hollywood estava de acordo com a Casa Branca. Foi nessa época que se filmou o Rambo 3: os afegãos muçulmanos eram os bons. Hoje são os piores dos maus, no tempo de Bush filho, treze anos mais tarde.

Henry Kissinger foi um dos primeiros a reagir face à recente tragédia. “Tão culpados quanto os terroristas são aqueles que lhes deram apoio, financiamento e inspiração”, foi a sua sentença, retomada pelo Presidente Bush poucas horas mais tarde. Se assim é, devia-se começar por bombardear Kissinger. Ele será culpado de muitos mais crimes do que os cometidos por Bin Laden e por todos os terroristas que existem no mundo. E em muitos mais países: agindo por conta de vários governos americanos, levou “apoio, financiamento e inspiração” ao terrorismo de Estado na Indonésia, no Cambodja, no Chipre, nas Filipinas, na África do Sul, no Irão, no Bangladesh, e nos países sul-americanos que sofreram a guerra suja do Plano Condor.

A 11 de Setembro de 1973, vinte e oito anos antes das chamas recentes, ardia o palácio presidencial no Chile. Kissinger tinha antecipado o epitáfio de Salvador Allende e da democracia chilena, comentando os resultados das eleições:”Nós não podemos aceitar que um país se torne marxista por causa da irresponsabilidade do seu povo”.

O desprezo pela vontade do povo é uma das muitas coincidências entre o terrorismo de Estado e o terrorismo privado. Por exemplo, a ETA, que mata em nome da independência do País Basco, diz através de um dos seus porta-vozes:”Os direitos não têm nada a ver com maiorias e minorias”.

Há muitos pontos comuns entre terrorismo artesanal e o terrorismo de alto nível tecnológico, entre o dos fundamentalistas religiosos e os fundamentalistas do mercado, o dos desesperados e o dos poderosos, o dos loucos isolados e o dos profissionais de uniforme. Todos partilham o mesmo desprezo pela vida humana: os assassinos dos cinco mil cidadãos esmagados sob os escombros das Torres Gémeas e os assassinos dos vinte mil guatemaltecos, na maioria indígenas, que foram exterminados sem que jamais a televisão ou os jornais do mundo lhes tenham prestado a mínima atenção. Esses, os guatemaltecos, não foram sacrificados por nenhum fanático muçulmano, mas pelos militares terroristas que receberam “apoio, financiamento e inspiração” dos governos dos Estados Unidos.

Todos os amantes da morte coincidem também na sua obsessão em reduzir a termos militares as contradições sociais, culturais e nacionais. Em nome do Bem, da Verdade única, todos resolvem tudo matando primeiro e levantando as questões depois. Deste modo, acabam por favorecer o inimigo que combatem.

Foram as atrocidades do Sendero Luminoso que prepararam o terreno do Presidente Fujimori, que, com um considerável apoio popular, implantou um regime de terrror e vendeu o Peru por tuta-e-meia. Foram as atrocidades dos Estados Unidos no Médio Oriente que prepararam o terreno da guerra santa do terrorismo de Alá.

Embora agora o líder da civilização exorte a uma nova cruzada, Alá está inocente dos crimes que se cometem em seu nome… afinal de contas, Deus não ordenou o holocausto nazi contra os fiéis de Jeová e não foi Jeová quem ditou o massacre de Sabra e Chatila, nem quem mandou expulsar os palestinianos da sua terra.

Uma tragédia de equívocos: já não se sabe quem é quem. O fumo das explosões faz parte de uma cortina de fumo bem mais espessa ainda, que nos impede de ver. De vingança em vingança, os terrorismos obrigam-nos a caminhar titubeando. Olho uma fotografia recente: numa parede de Nova Iorque alguém escreveu: “O olho por olho torna o mundo cego”. A violência gera violência e também a dor, o medo, o ódio e a loucura.

Em Porto Alegre, no início do ano, o argelino Ahmed Bem Bella avisava:”este sistema que já pôs as vacas loucas está a pôr as pessoas loucas”. E os loucos, loucos de ódio, agem da mesma maneira que o poder que os gerou. Luca, de três anos, comentava estes dias:”O mundo já não sabe onde fica a sua casa”. Estava a ver um mapa-múndi. Mas podia estar a ver o telejornal.

GALEANO, Eduardo,”O teatro do Bem e do Mal”, O Império em guerra, Porto, Campo das Letras, 2002.

11 Perspectivas de um só drama

Tal como o nome sugere, não se trata de um filme, mas antes um conjunto de onze pequenas obras cinematográficas - de outros tantos autores – apresentadas sequencialmente e orquestradas sob a batuta do maestro do projecto, o reputado cineasta francês Claude Lelouch.

Partindo do atentado contra o World Trade Center, a obra não se restringe à inspiração dos trágicos eventos do 11 de Setembro de 2001. Tem o especial condão de ser, que se saiba, o primeiro olhar cinematográfico a que os acontecimentos daquele dia deram origem. A primeira constatação, inevitável, é a heterogeneidade de estilos evidenciada na arte de filmar.

A liberdade na concepção das curtas-metragens, desde logo apresentado pela produção como um objectivo primordial, acaba por se traduzir naturalmente nos trabalhos filmados pelos onze cineastas.

À partida, não se esperaria que um realizador do Burkina-Faso ou do Irão dispusesse dos mesmos expedientes (sobretudo ao nível da produção) dos seus colegas europeus da França ou Inglaterra e essa diferença de cadências produtivas acaba mesmo por se revelar um dos pontos de maior interesse nesta obra de conjunto.

Por outro lado, uma outra evidência salta à vista. Apesar do rol de realizadores preencher os vários cantos do mundo (Europa Ocidental e Oriental, América do Norte e Central, Norte de Africa e Austral, Extremo Oriente e Sudeste Asiático), não deixa de ser notório a falta de um representante da América do Sul (o México acaba por ser o único consignatário latino americano, com um cinema cada vez mais próximo do vizinho do norte que do universo cinematográfico reconhecido a sul das Caraíbas).

De resto, dos países envolvidos no projecto constam: Irão, França, Israel, India, Egipto, México, EUA, Inglaterra, Burkina-Faso, Bósnia-Herzegovina e Japão. Podemos mesmo afirmar, que 11 Perspectivas apresenta-se assim como um autêntico festival cinematográfico e multicultural inserido numa só obra. 11 perspectivas de autor (entre eles alguns nomes bem emblemáticos como Chahine, Lelouch, Loach ou Imamura) de um só drama.

alberto guerreiro | milton dias

11'09"01 – 11 Perspectivas

Realizado por Youssef Chahine, Amos Gitai, Shohei Imamura, Claude Lelouch, Ken Loach, Mira Nair, Idrissa Ouedraogo, Sean Penn, Samira Makhmalbaf, Danis Tanovic, Alejandro González Iñárritu.

França / Reino Unido, 2002

11 realizadores de 11 países filmam 11 curtas de 11 minutos e 9 segundos sobre o 11 de Setembro. 11 olhares diferentes de um pouco de todo o mundo.

Wednesday, August 24, 2005

...

Tuesday, August 23, 2005

Setembro | Ciclo "9.11 – A Guerra dos Mundos"

08_09:
"11'09"01 – 11 Perspectivas " de Youssef Chahine, Amos Gitai, Shohei Imamura, Claude Lelouch, Ken Loach, Mira Nair, Idrissa Ouedraogo, Sean Penn, Samira Makhmalbaf, Danis Tanovic, Alejandro González Iñárritu.

15_09:
08_09:
"Fahrenheit 9/11
" de Michael Moore

22_09:
"Persona Non Grata" de Oliver Stone

Em órbita (sessões especiais da 7.ª à 5.ª)
29_09:
"Terra da Abundância" de Wim Wenders

Monday, July 25, 2005

EM ÓRBITA do DOGMA 95: Europa – Lars von Trier

Em órbita do ciclo Dogma 95, apresenta-se o primeiro grande filme de um dos seus fundadores. Longe da génese do movimento, Europa de Lars von Trier reflecte no entanto grande parte dos fundamentos estéticos e conceptuais da obra deste autor dinamarquês. A visão experimentalista e dogmática sobre o cinema, que influenciará o próprio movimento pela mão de Trier estão aqui bem presentes.

Europa

Em 1991, um filme causou sensação pela sua qualidade plástica e conceptual. Esse filme foi sem dúvida alguma Europa de Lars von Trier. Deu a conhecer ao mundo um novo mestre do cinema que mesmo antes já tinha marcado presença significativa no contexto audiovisual com dois registos televisivos importantes: Medeia (1987) e Epidemia (1988). No entanto, estas duas produções, de amplitude mais restrita, só teriam o seu reconhecimento depois do aparecimento de Europa quando este ganhou o grande prémio do júri de Cannes.

A personagem principal de Europa (magistralmente interpretada por Jean-Marc Barr), um jovem americano nascido na Alemanha, regressa à terra natal para ajudar à reconstrução do pós-guerra, acabando por se embrenhar numa epifania simultaneamente individual (em que se conhece a si próprio) e colectiva, do estado/nação/continente à deriva. A Europa e a consciência de ser europeu são temas recorrentes em Trier: está presente logo no seu primeiro registo filmado, em Elemento do Crime (1982) onde neste thriller psicológico a Europa é tida como um só país.

Trier é um seguidor confesso de Carl T. Dryer (1889 - 1968), um dos expoentes máximos dos primórdios do cinema europeu e a grande referência clássica do cinema dinamarquês. A reverência está presente de forma evidente não só ao nível plástico (estético) mas igualmente ao nível formal e conceptual na elaboração de histórias pesadas, dando enfoque ao lado mais negro da existência humana e na construção de enredos que enaltecem o desencanto do mundo cujos finais parecem constituir nenhuma esperança. Europa, é um dos grandes exemplos dessa herança artística e cultural. Mas Trier é igualmente um cinéfilo assumido. Europa, por exemplo, faz homenagem à cinematografia surrealista de inicio do século XX de Buñuel e Rene Clair.

O filme suplanta tudo e todos através da narração (a voz pausada de Max von Sydow), de teor descritivo e ambição hipnótica, que contribui para a criação de um tom fabular cada vez mais contrastante à medida que o filme avança. A fábula encarnada no personagem principal, é o do próprio “velho continente” que se afunda – personificada no afogamento de Leopold Kessler - no momento em que é dada a destruição da sombria Alemanha nazi ergue-se uma nova ordem mundial. Nasce, nesse instante, uma nova Europa!

Thursday, July 21, 2005

O Dogma segundo Lone

Aos 42 anos, Lone Scherfig é autora de dois filmes memoráveis na esfera cinéfila (The Birthday Trip e On Our Own). Assinou também vários trabalhos para a rádio, televisão e teatro. Hoje, o seu belo ITALIANO PARA PRINCIPIANTES ganhou o Urso de Prata do último festival de Berlim.

O que é que a seduzia na realização de um filme Dogma?

Lone Scherfig – Primeiro, poder fazer o que queria. (...) Depois, a ligeireza da produção. Do primeiro dia do argumento até ao último dia de montagem, as coisas desenrolaram-se incrivelmente rápido. Não tive que sofrer o peso de uma produção “normal” onde, por vezes, ficamos vários dias a rodar uma cena de um minuto.

Lars von Trier interveio muito?

Lone Scherfig – Estudámos na mesma escola de cinema. Pertencia ao ano anterior ao meu. Produziu também uma das minhas séries de televisão. Lars comportou-se comigo como um colega. É um excelente produtor. Conhece de cor as três versões sucessivas do argumento. E pode dar-me conselhos sensatos sobre o sítio em que colocar esta ou aquela cena.

O seu filme prefere o humor ao drama...

Lone Scherfig – O que eu temo sobretudo é a pretensão. Em ITALIANO PARA PRINCIPIANTES, tentei fugir à tristeza e ao sentimentalismo, mesmo que o meu filme, de facto, seja verdadeiramente triste e sentimental. Mas se o chega a ser, é porque eu desejei que nada fosse insistente... Quando trabalho, de qualquer modo, gosto de rir. Então, crio uma atmosfera de felicidade no plateau. É como quando um médico nos dá uma injecção. Ele sabe que vai magoar-nos, então prefere pôr-nos de bom humor.

Porque este fascínio pela Itália?

Lone Scherfig – Fantasma escandinavo... Mas, enfim, tinha vontade de filmar em Veneza. E depois, sempre amei o cinema italiano: Rossellini, Fellini...


O. D. B., Première

Janeiro 2002

Wednesday, July 20, 2005

Entrevista: Lone Scherfig

Como surgiu a ideia para esta história?

Lone Scherfig – “A Festa” impressionou-me muito tal como o seu sucesso merecido. A simplicidade das regras do Dogma parece-me uma boa maneira de construir um filme ligeiro tanto no plano da rodagem como o do argumento. A história pode parecer simples: ela é como a terra que é enriquecida pelo trabalho dos actores para chegar mais longe na verdade das personagens. Para além dos seis actores, foi também o local da rodagem que deu origem ao aspecto de “pequena cidade” desta comunidade de destinos. Foi tudo filmado à volta de Filmbyen.

Cada personagem do filme perde algo ou alguém. Qual é para si o preço da vida?

Lone Scherfig – O filme comporta um aspecto dramático e um aspecto cómico. Dramático porque as dificuldades que as minhas personagens encontram dão esse tom: amar alguém e dizer-lhe é sem dúvida a verdadeira questão de todas as personagens e não é uma questão fácil. Cómico porque as personagens são seres humanos por inteiro, ou seja com uma real complexidade. É o olhar que eu tenho sobre eles que faz pender a balança para um lado ou para outro. Por exemplo a personagem de Halvfinn, o empregado fã do clube de futebol Juventus. No início, no argumento, era um personagem mais resmungão, passando o tempo a dizer as verdades às pessoas. Depois, no filme, Halvfinn é divertido e impertinente. Traz muito dinamismo ao filme. Cada um deles é dramático e cómico. Se cada personagem perde alguém ou algo, encontra outra pessoa ou outra coisa no final do filme; cada um à sua maneira. O final do filme é um happy end sobre a possibilidade de serem eles próprios, apesar de tudo.

Através do seu filme, temos uma impressão de solidão que se desprende dos lugares, dos cenários, da paisagem...

Lone Scherfig – A impressão de solidão é provocada pelo facto de termos filmado no Inverno. Parece-me uma boa tela de fundo para realçar o que me interessa: as personagens. Queria que a atenção do espectador se concentrasse nas personagens e nas suas histórias. É uma implicação do espectador muito diferente da que provoca o star system. Um filme com as regras do Dogma mergulha o espectador num universo muito quotidiano. É isso que é interessante nesta aposta: cada espectador pode identificar-se com o conjunto das personagens e não apenas com uma delas. Como queria estar próxima deles, privilegiei o rosto dos actores. Não é um filme de paisagens mas sim um documentário dos sentimentos.

As regras do Dogma não alteram por completo a possibilidade de tornar belos os actores que filma...

Lone Scherfig – Penso que as regras do Dogma permitem dar tempo ao olhar. Os actores tornam-se então muito bonitos. Gosto muito deles.

No seu périplo a Veneza, no final do filme, há uma cama que permite uma cena romântica...

Lone Scherfig – Isso fez parte das surpresas fabulosas que as regras do Dogma permitem. Tudo está lá na vida e só preciso agarrá-lo, captá-lo. Em Veneza, quando Halvfinn e Karen vão para uma ruela afastados dos olhares, estava lá realmente uma cama, ali como caída do céu e para grande felicidade do filme. Se a cama não estivesse lá, não a teria imaginado. É uma das condições do Dogma. Rodagem rápida, ligeira, o mais perto possível da realidade. Enquanto cineasta, desembaraçamo-nos de uns quantos artifícios para chegar ao essencial: confiar no real, acreditar na vida e aceitá-la.

Entrevista por Malika Aït Gherbi,

coordenadora nacional da Association Française des Cinémas d’Art et d’Essai

Tuesday, July 19, 2005

Italiano para Principiantes ou Dogme #12 Italiensk for Begyndere

Realizado por Lone Scherfig
Dinamarca, 2000 Cor – 98 min.

Andreas, um jovem padre viúvo, chega aos subúrbios de Copenhaga para substituir o pároco local.

JØrgen Mortensen é um recepcionista de hotel com problemas amorosos, que não tem relações sexuais com uma mulher há quatro anos e frequenta o curso de italiano.

Olympia é uma rapariga charmosa, apesar de muito desajeitada, que trabalha numa pastelaria e sofre diversos traumas devidos à violência verbal do pai. Sonha em inscrever-se no curso de italiano, porque está convencida que a mãe é italiana.

Olympia apaixona-se por Andreas e pouco depois a sua vida é surpreendida por um outro acontecimento. No funeral da mãe, a rapariga descobre que é irmã de Karen, uma cabeleireira (com uma mãe problemática) que se apaixona por Finn, um adepto da “Juventus”, com uma história de tentativas goradas de corte de cabelo.

Finn é empregado de mesa mas, quando é despedido, torna-se professor no curso de italiano.

Giulia é uma italiana, com uma grande fé na Virgem Maria, colega de Finn no restaurante e tem uma paixoneta por JØrgen Mortensen.

O curso de italiano vai funcionar para estas personagens frágeis e solitárias como uma espécie de catalisador que as conduzirá ao encontro do amor, vivido à típica maneira italiana.

Tuesday, July 12, 2005

Os Idiotas/Idioterne ou Dogme #2 Idioterne

Realizado por Lars Von Trier
Dinamarca, 1998 Cor - 125 min.

Um grupo de pessoas junta-se numa grande residência e dedicam-se a procurar o idiota que está dentro de cada um, entrando em "paranóia", babando-se e passando em público por verdadeiros deficientes mentais, como forma de se libertarem dos seus problemas e de chocarem as instituições burguesas. Depois de um período de estágio, chega a altura do exame, isto é, de levar a loucura para o meio "normal" do qual tiraram férias.
Todos os limites pessoais são ultrapassados, com este retrato de um cinema nu e cru. Este é o segundo filme poduzido no âmbito da plataforma Dogma 95, fundada por Lars von Trier e Thomas Vinterberg.

Monday, July 11, 2005

A cólera de Lars Von Trier

As regras do Dogma não foram respeitadas!

Foi a descoberta que fez Lars Von Trier, ao examinar cuidadosamente, depois de algumas indicações, a versão de "Os Idiotas" que, depois da sua estreia em Cannes em 1998, foi distribuído em todo o mundo. A traição veio de Peter Aalbaek, seu sócio na produtora Zentrope que, sem avisar o realizador de "Breaking The Waves" tomou a decisão de aumentar artificialmente o nível de iluminação, coisa que é formalmente proibida pelo Dogma. No "Libération", Aalbaek explica-se: "quando vi o filme, era simplesmente impossível ver fosse o que fosse, com aquela luz tão fraca. A qualidade era horrível, o filme estava impossível de ser distribuído, apesar de já estar vendido para o mundo inteiro. (...) Tenho um princípio: quando se faz um filme de cinema, é para ele ser visto. Lars não está de acordo". No início Lars Von Trier anunciou a sua intenção de retirar todas as cópias do filme em circulação para as substituir pela versão do filme controlada por si, mas acabou por se render aos argumentos de Aalbaek devido à impossibilidade prática da operação.

Thursday, July 07, 2005

A Festa - o que se esconde por detrás

Sigma 1: os trigais emergem na sua máxima beleza. O imenso sol pesado põe-se. Caminha-se até à toca do lobo. O patriarca espera pelo filho pródigo no escritório das traseiras do castelo da família. O filho permanece nervoso no seu primeiro reencontro com o pai. Ele não está tranquilo. Algo se esconde por detrás. A verdade esconde-se sob sinais. Ansiedade está à flor da pele. A festa vai começa lentamente.

Sigma 2: os lençóis brancos tapam a mobília do quarto onde a irmã gémea se suicidou. Uma casa de banho como cemitério de almas suicidárias: “Ela está na casa de banho!”…”Não pode, esta…ela morreu!”…”Acho que devíamos era ir embora”.

Sigma 3: o jogo do “está morno”. Descobrir o esconderijo do anel. O jogo é uma velha brincadeira de crianças. E agora o jogo da verdade começou. E começou na banheira onde a irmã gémea morreu. E agora o recepcionista, no seu fato escuro, deita-se e aguarda na banheira. E não se trata de um jogo. É fatal e real.

Sigma 4: a água agita-se no copo de Christian. A água corre no quarto ao lado. Assistimos à descoberta da carta no candeeiro do tecto. A água corre. Água da vida. Num jogo real e fatal, nos 60.º aniversário do patriarca.

Sigma 6: o esconderijo de uma carta de suicídio. O esconderijo da verdade. Momentos antes, a Festa começara. A carta deve ser escondida de novo num tubo de comprimidos. A verdade dolorosa deve ser ela própria dopada, tornada invisível e insensível. A Festa deve continuar. Sob efeito dopante da ignorância.

Sigma 7: Christian adormece no cadeirão com uma bela e sexy rapariga à mão. Ele está exausto com o encontro com o patriarca. “Já nem te dignas a olhar para uma mulher bonita … onde estás tu, encantador Christian?” E ele sonha que corre com o pai no jardim.

Sigma 8: na realidade trata-se do patriarca com o neto, filho do seu irmão Micheal. O que é afinal sonho e realidade? Há que descobrir.

Sigma 9: a empregada de mesa deixa entornar a água no colo de Micheal. Ele merece um pequeno banho de água fria. No entanto, não sabemos o quanto ele gela por dentro.

Sigma 10: Helene, a irmã, deixa cair o copo de vinho, de forma estridente, durante o primeiro discurso de Christian. O discurso verde é uma escolha interessante. Trata-se de um discurso da verdade. A verdade fatal. Da do tipo que exclui patriarcas do castelo da família. Trata-se na verdade, de um discurso fatal.

Sigma 11: o roubo de todas as chaves dos carros. É um sinal da verdade penetrando a pele. Agora a festa é forçada a ouvir a verdade de novo e de novo. Não há escapatória possível. A Festa deve prosseguir até ao âmago da verdade.

Sigma 12: o segundo discurso. Um brinde à saúde de Helge, o patriarca violador. “Façamos um brinde ao homem que matou a minha irmã! Um assassino!”

Sigma 13: a mente distorcida do patriarca tenta esconder a verdade e diz: “Meu filho, tu tens uma alma perversa…estás apenas interessado na tua mente doentia!” A verdadeira doença é revelada. Uma herança deixada ao filho. Uma mentira que o filho se encarregará de desmascarar.

Sigma 14: a matriarca tenta descrever aos convidados o quanto criativo era Christian na infância. Como, muito novo, inventava histórias fantásticas, daquelas que ninguém poderia acreditar. E agora, repetia essa atitude. Verdadeiramente inacreditável. A verdade como ilusão. A realidade como fantasia.

Sigma 15: o terceiro discurso de Christian. “São tão corruptos que desejo que morram!”. O atormentado orador da verdade é retirado violentamente da Festa. A violência do passado permanece no tempo presente. Assim deve ser. Enquanto isso a avó ensaia um cântico sobre a paz e a calma do bosque. Um velho hino da paz dinamarquês que homenageia a natureza pela sua serenidade. Mas já não existe paz alguma. Não nesta Festa.

Sigma 16: a carta de suicídio é revelada a partir de um tubo de comprimidos. A realidade rompe por entre norcóticos e mediocridade que tenta esconder o que nunca pode ser dopado. Pela sua força, a verdade vem à superfície. Ninguém os pode proteger.

Sigma 17: Christian caído no chão. É atirado para a visão da irmã gémea morta. Ela suspira na escuridão: “Christian…Eu vou-me embora agora”. Pelo meio Christian pergunta: “Queres que vá contigo?”. O amor é mais forte. Trata-se do amor à verdade sendo mais forte que tudo o resto.

Sigma 18: o castigo é aplicado na noite sombria. A violência prolonga-se. Não tem fim.

Sigma 19: o patriarca tenta uma última redenção. Sem sucesso, é conduzido à porta. Deve abandonar o castelo sagrado da família. Não pode permanecer. Demasiada verdade violada. Deve morrer no desconhecido. É a verdade que fecha a porta por detrás dele. Pode-se agora dar início à verdadeira Festa – à mesa do pequeno-almoço.


Recensão do Filme:
Nikolas Juel
(convidado da 7.ª à 5.ª)
Aarhus, Dinamarca, Julho de 2005.

Wednesday, July 06, 2005

A Festa/Festen ou Dogme #1 Festen

Realizado por Thomas Vinterberg
Dinamarca, 1998 Cor - 106 min.

É Verão na Dinamarca e há uma festa em honra do patriarca da família Klingenfelt. Os seus 60 anos vão ser comemorados com os amigos, parentes e, claro, com a mulher Elsa, e os três filhos, já adultos, Christian, Michael e Helene. Apesar de todos os detalhes terem sido pensados ao pormenor, a comemoração acaba por se transformar em algo muito parecido com uma festa surpresa: a tensão instala-se, os elogios dão lugar a desabafos secretos e revelações escandalosas. Todas as famílias têm os seus segredos...

Tuesday, July 05, 2005

...

Julho | Ciclo "DOGMA 95"

07_07:
"A Festa" de Thomas Vinterberg

14_07:
"Os Idiotas" de Lars Von Trier

21_07:
"Italiano Para Principiantes" de Lone Scherfig

Em órbita (sessões especiais da 7.ª à 5.ª)
28_07:
"Europa" de Lars Von Trier

Monday, July 04, 2005

O que é o DOGMA 95?

O DOGMA 95 é um Manifesto criado por um conjunto de realizadores, em Copenhaga no Outono de 1995, com o objectivo de contrariar “certas tendências do cinema actual”, posicionando-se como uma “operação de salvamento” de um cinema que consideram morto. O Dogma 95 opõe-se ao conceito de autor, de cinema individual, efeitos especiais, maquilhagem e ilusões [“A tarefa ‘suprema’ dos realizadores decadentes é enganar a audiência. É disso que estão tão orgulhosos? Foi isso que ‘100 anos’ nos deram? Ilusões a partir das quais as emoções podem ser comunicadas? (...) Uma ilusão da dor e uma ilusão do amor”]. O Dogma 95 opõem-se ao cinema da ilusão pela apresentação de um incontestável conjunto de regras designadas como VOTO DE CASTIDADE. Os primeiros realizadores dinamarqueses a assinar este manifesto e assumir o voto de castidade foram Lars von Trier e Thomas Vinterberg.

O Voto de Castidade

Juro submeter-me ao seguinte conjunto de regras estabelecidas e confirmadas pelo DOGMA 95:

1. As filmagens têm de decorrer fora dos estúdios. Não se podem introduzir adereços nem cenários (se for necessário um adereço particular para a história, a localização da cena tem de ocorrer no local onde ele se possa encontrar).
2. O som nunca pode ser produzido separadamente das imagens ou vice-versa. (Não pode ser utilizada música, a não ser que ela exista no local onde decorre a cena).
3. Tem de se usar a câmara à mão. É permitido todo o movimento ou imobilidade possibilitado pela mão. (O filme não pode decorrer onde está a câmara; a filmagem tem de decorrer onde decorre o filme).
4. O filme tem de ser a cores. Não é aceitável iluminação especial. (Se houver muito pouca luz a cena deve ser cortada ou adapta-se uma única lâmpada à câmara).
5. São proibidos filtros e efeitos.
6. O filme não pode conter uma acção superficial. (Assassinatos, armas, etc. não podem acontecer.)
7. Estão proibidas as alienações temporais e geográficas. (O que significa que o filme se passa aqui e agora.)
8. Não são aceitáveis os filmes de género.
9. O formato do filme tem de ser 35mm standard.
10. O nome do realizador não pode aparecer no genérico.

Para além disto, enquanto realizador, juro abdicar do gosto pessoal! Já não sou um artista. Juro abdicar de criar uma “obra”, uma vez que penso que o instante é mais importante do que o todo. O meu objectivo supremo é obter a verdade das minhas personagens e do enquadramento da acção. Juro fazê-lo por todos os meios disponíveis e à custa de todo o bom gosto e de todas as considerações estéticas. Assim faço o meu voto de castidade.”

Fontes: Atalanta Filmes e site oficial www.dogme95.dk

Thursday, June 30, 2005

EM ÓRBITA Das Megalópolis do Futuro: 2046 – WONG KAR-WAI no espaço estético e conceptual futurista

Na periferia do ciclo Techno-Tokyo ou as Megalópolis do Futuro, apresenta-se o último filme de Wong Kar-wai, um dos grandes mestres actuais do cinema mundial: 2046. Esta sequela que traz de volta a personagem masculina de Disponível para Amar (In The Mood For Love: 2000), interpretado por Tony Leung, encontra-se à partida nos antípodas do ciclo proposto cuja incidência recaiu exclusivamente no cinema animado japonês – anime manga - da última década. O primeiro antagonismo é desde logo o facto de este não se tratar de um filme de animação e muito menos numa visão apocalíptica do universo. A ligação, aqui quase subliminar, estabelece-se na conotação estética e conceptual que este filme apresenta sobre o futuro, veiculada na ficção científica idealizada pela personagem principal (Chow Mo-Wan): um espaço localizado em 2046, composto num belo cenário futurista digital, onde se encontram todas as memórias e onde nada se esquece. O filme conta ainda com a presença da bela e misteriosa Gong Li, para muitos a última das grandes divas da 7.ª Arte.

2046
Realizado por Wong Kar-wai
Hong Kong/ China/França/Alemanha, 2004 Cor – 109 min.
Com: Tony Leung Chiu-wai, Gong Li, Faye Wong [Wang Fei], Kimura Takuya, Zhang Ziyi, Carina Lau Ka-ling, Chang Chen, Tongchai McIntyre, Dong Jie, Wang Sum, Siu Ping-lam, Maggie Cheung Man-yuk.

Chow (Leung) é um jornalista que ganha a vida a escrever ficção para um jornal. Actualmente, dedica-se a "2046", uma história futurista sobre um lugar ou um ano para onde as personagens se deslocam à procura das suas memórias perdidas. Depois de passar algum tempo em Singapura, regressa a Hong Kong e fica hospedado num hotel pequeno, mas com quartos suficientes para existir o número 2046. Esse número recorda-lhe a relação frustrada com Su Lizhen (Cheung), anos atrás, e pede ao dono (Wang) para ficar ali alojado, mas este sugere-lhe o 2047, enquanto o 2046 está em obras. O quarto inicialmente almejado acaba por ser ocupado por Bai Ling (Zhang), com quem Chow passa a encontrar-se regularmente.

7.ª à 5.ª apresenta: EM ÓRBITA - Sessões Especiais

A partir do dia 30 de Junho, a 7. ª à 5.ª apresenta uma nova rubrica temática de cinema denominada Em Órbita. Tal como o nome indica, a rubrica inscreve-se de forma periférica aos próprios ciclos divulgados por esta iniciativa estabelecendo no entanto com eles uma ligação ténue mas pertinente aos temas de cada evento mensal.

Essa ligação, que pode ir desde a relação biográfica dos autores, à interconotação estética, artística, conceptual ou ainda à contextualização histórica, é activada pela apresentação de um filme por mês.

Esta nova inscrição no espaço de programação é encarada como fundamental aos propósitos avançados, pela própria 7.ª à 5.ª, de reflexão e interpelação total sobre o cinema, dando ao público e cinéfilos em geral, através da apresentação de universos paralelos ao tema, aparentemente antagónicos, uma perspectiva mais abrangente e aprofundada de cada ciclo divulgado.

As sessões integradas no espaço Em Órbita, não se regem à partida por uma lógica de programação rígida, comum àquela que estabelece as linhas de orientação dos ciclos, mas antes pela liberdade de movimentação num espaço de rota autónomo ainda que sempre imanada por uma força de atracção que as une ao universo filmíco apresentado para cada mês.

Wednesday, June 22, 2005

Akira

Realização: Katsuhiro Otomo
Japão, 1987

O filme foi lançado no Japão em 16 de Julho de 1988, arrecadou milhões, abocanhou dezenas de prémios internacionais e consagrou o seu autor, Katsuhiro Otomo, como um dos maiores mestres da animação mundial. "Akira" é baseado no manga homónimo, um clássico japonês com mais de 2000 páginas.

O "anime" passa-se numa Tokyo (hoje chamada de Neo Tokyo) já abalada por uma Terceira Guerra Mundial, e o ano é 2019. Gangs de motards povoam uma nova cidade aterrorizada por grupos anti-governamentais.

AKIRA faz jus a tanta fama?

Sem dúvida alguma! Com uma animação impecável, a cargo de Nakamura Takashi, "design" nas mãos de Mizutani Toshimaru, uma banda sonora perfeita desenvolvida por Yamashiro Geino e argumento por conta de Hashimoto Izo e o próprio Katsuhiro Otomo, AKIRA é uma das melhores longa-metragens de todos os tempos.
São 124 minutos de pura acção, suspense e terror, colocados lado-a-lado a uma trama psicológica de nos deixar de boca aberta.

Wednesday, June 15, 2005

Blood - The Last Vampire

Realização: Hiroyuki Kitakubo
Japão, 2001

Blood - The Last Vampire possui apenas 48 minutos de duração e é para quem gosta de sangue, muito sangue!

Passa-se numa base americana (Yokota Air Force Base), pouco antes da guerra do Vietname eclodir (1966), e conta a história de Saya, uma mestra na arte de manipular espadas. Uma caçadora silenciosa e misteriosa que fareja o seu oponente e vai ao seu encalço, até o destruirPara quem aprecia ambientes obscuros, músicas envolventes e animação de alta qualidade, este ‘anime’ é obrigatório, pois regularmente a imagem aparece-nos como num filme, mudando de perspectiva suavemente, e as personagens 2D misturam-se com o cenário de forma impressionante.
A banda sonora variando entre orquestra e jazz é outro ponto alto... cria toda uma ambiência, uma atmosfera fria, dando um realismo ainda maior às cenas.

Blood desenvolve uma sequência de cenas impressionantes, mas fica-se com aquela impressão de se estar a assistir a um episódio de alguma série de terror, pois parece que algo começou há muito tempo e está a caminhar para o final... mas, na realidade, nada disso acontece. Não espere muito de Blood, pois a história já tem o seu final antes mesmo de começar. Não há mistério.

Outra coisa que também chama a atenção em Blood são os diálogos, na sua grande maioria em inglês, o que é uma raridade, e percebe-se que é o inglês britânico (mais raro ainda), pois não se ouve o calão, tão comum no inglês americano.

O filme impressiona pela qualidade visual, ficando no ar uma pergunta sem resposta: o que Saya realmente é? Caçadora ou presa? Isso fica a cargo da imaginação de cada um.

Thursday, June 09, 2005

Metropolis

Realização: Rintaro
Japão, 2001

Metropolis é a fascinante história futurista da intemporal luta de classes no seio da civilização humana. Esta história, no entanto, tem uma variação futurista - a divisão de classes não é entre os humanos, mas entre os humanos e os humanóides, robôs sensíveis ao dispôr da luxuosa existência dos humanos.Passado numa cidade do futuro, no auge da sua civilização, Metropolis conta a história de Tima - uma bela e misteriosa humanóide feminina que não percebe que é um robô.É Tima que tem que se descobrir a ela própria, ao mesmo tempo que estabelece a ponte entre os humanos e os robôs humanóides de Metropolis. Tima tem de parar o tenebroso ditador de Metropolis, Reddoko... e salvar toda a cidade.

Monday, June 06, 2005

Junho | Ciclo "TECHNO-TOKYO" ou as Megalópolis do Futuro

09_06:
"Metropolis" de Rintaro

16_06:
"Blood - The Last Vampire" de Hiroyuki Kitakubo

23_06:
"Akira" de Katsuhiro Otomo

+

Em órbita (sessões especiais da 7.ª à 5.ª)

30_06:
"2046" de Wong Kar-Wai

Wednesday, April 27, 2005

Antes do Amanhecer – Um certo romantismo

Antes do Amanhecer
Before Sunrise
Realização: Richard Linklater
Intérpretes: Julie Delpy, Etham Hawke
EUA/Áustria, 1995

Richard Linklater surpreendeu tudo e todos quando em 1995 apresentou ao mundo o belo e sensível Antes do Amanhecer. Uma obra bem diferente das suas duas anteriores. Convém ressalvar que a surpresa não residia na qualidade cinematográfica, já expressa pela crítica em Slaker (1991) e Dazzed and Confused (1993), mas antes pelo estilo que Linklater impôs à sua terceira obra, agora marcadamente romântica. Emergia com este filme um certo romantismo intimista que se julgava perdido na mais recente cinematografia americana (se exceptuarmos aqui Woody Allen). O filme ajudaria mesmo Linklater a aquecer o coração, por vezes, frio de Berlim ao conquistar o Urso de Prata para o prémio de melhor realizador.

Apesar de se integrar no rol de histórias de 24 horas (24 h storie movies), uma fórmula utilizada por Linklater na maior parte das suas obras, a orientação desta última é de sentido quase inverso às anteriores. Se bem que as primeiras se posicionavam na análise caricatural de uma juventude americana herdeira da década de 70 e 80 (Dazzed and Confused assume-se como a resposta de Linklater a American Graffiti de George Lucas), revelando um sentido crítico corrosivo e excessivo, em Antes do Amanhecer encontramos uma aproximação bastante diferente onde a perspectiva do realizador dá lugar a uma visão bem mais realista e credível das relações humanas.

À primeira vista estamos perante um salto de amadurecimento no que toca à concepção da sua filmografia. No entanto, o que surpreende ainda mais é o facto de Linklater não ter dado seguimento, de imediato, a esta linha de orientação. Nos projectos posteriores verifica-se um regresso ao registo dos seus dois primeiros filmes: as duas comédias frívolas que se seguiriam, Suburbia (1997) e School of Rock (2001), são bem exemplo disto. Mais pela força das circunstâncias do que pelo percurso natural do desenvolvimento da sua cinematografia, Linklater só voltará mais tarde a utilizar este mesmo padrão.

A condição de filme de culto que entretanto Antes do Amanhecer adquirira obriga em 2004 a uma sequela do mesmo com Before Sunset – Antes do Anoitecer. Foi assim preciso esperar pela continuação da história original de Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy) para vermos Linklater manusear de novo um estilo onde se constata que domina com segurança mas que parece não ser uma linha de continuidade (isto confirma-se com o seu mais recente filme The Bad News Bears de 2005, um regresso à comédia ligeira e livre muito ao género de School of Rock).

Assim sendo, em Antes do Amanhecer, talvez a sua obra mais profunda, estamos perante uma das melhores comédias românticas do cinema dos últimos anos. Um dos seus maiores trunfos reside na contribuição dos dois actores principais, Ethan Hawke e Julie Delpy, cuja interpretação os ligará para sempre à história do cinema. Da sua imensa habilidade no domínio da construção destas duas personagens e mestria na condução da magnífica sequência de diálogos inscreve-se a grande força deste filme. Hawke e Delpy encaixam na perfeição numa película sem efeitos ilusórios onde o único elemento acessório é a beleza da cidade de Viena – no tratamento dado por Linklater, esta cidade afirma-se como personagem autónoma que ao longo do filme vai ganhando vida própria, tornando-se mutante de novas formas e novos sentidos. Linklater tem assim o condão de nos oferecer com esta bela obra um certo romantismo que muitas vezes parece arredio e até esquecido não só do “nosso” cinema mas também das nossas vidas. O filme chega a roçar os limites da simplicidade...duas personagens, um passeio, um grande filme.

“Jesse: Tenho uma ideia assumidamente louca, mas se não te perguntar isto vai perseguir-me o resto da vida.
Celine: O quê?
Jesse: Eu quero continuar a falar contigo. Não sei qual é a tua situação, mas... Mas sinto que temos algum tipo de ligação. Certo?
Celine: Sim, eu também. Sim, certo.
Jesse: Óptimo. Eis o que devíamos fazer. Devias sair comigo aqui em Viena, e vir conhecer a capital.
Celine: O quê?
Jesse: Vá lá. Vai ser divertido. Vá lá.
Celine: O que faríamos?
Jesse: Não sei. Só sei que tenho que apanhar um voo da Austrian Airlines amanhã de manhã às 9:30. E não tenho dinheiro para um hotel, por isso ia apenas passear, e seria bem mais divertido se viesses comigo. E se eu for algum tipo de psicopata, basta que entres no próximo comboio.
Celine: …
Jesse: Está bem, está bem. Pensa nisto assim: avança dez, vinte anos, e estás casada. Só que o teu casamento não tem aquela energia que costumava ter. Começas a culpar o teu marido. Começas a pensar em todos os homens que conheceste na tua vida, e o que poderia ter acontecido se tivesses escolhido um deles, certo?
Bem, eu sou um desses tipos. Pensa nisto como uma viagem no tempo, de lá até agora, para descobrires o que perdeste, o que isto poderia ter sido.
É um favor gigante a ti e ao teu futuro marido, para descobrires se não perdeste nada. Sou tão falhado como ele, desmotivado, enfadonho, e nesse caso fizeste a escolha certa e és realmente feliz.
Celine: Vou buscar a minha mala.”
Aconselhamos: Antes do Anoitecer - Before Sunset de Richard Linklater

Wednesday, April 20, 2005

TR13ZE – No limiar da idade maior!

Treze — Inocência Perdida
(Thirteen)
Realização: Catherine Hardwicke
Intérpretes: Evan Rachel Wood, Nikki Reed, Holly Hunter, Jeremy Sisto, Brady Corbet, Deborah Unger, Kip Pardue
EUA/Grã-Bretanha, 2003

Quando é que se deixa de ser criança e passamos à idade maior? Parece ser a questão que paira no ar do filme de estreia como realizadora de Catherine Hardwicke. O tema da juventude “problemática” começa a ser recorrente no cinema norte-americano, tornando-se nesta última década um estilo perfeitamente assumido, com uma proliferação anual de obras importante, sobretudo no seio de um certo cinema que se gosta de intitular como independente (não deixa de ser interessante verificar que nos últimos anos os prémios mais importantes do cinema independente americano, como o Sundance Award ou o Independent Spirit Award, tenham recaído em obras que tratam, de uma maneira ou de outra, este tema).

De tal maneira é assim, que este tipo de filmografia possui já os seus próprios consignatários: desde o reputado e galardoado Gus Van Sant (Gerry, Good Will Hunting e Elephant), ao polémico e duro Larry Clark (Kids, Ken Park e Bully), sem esquecer Richard Kelly (Donnie Darko) ou Scott Kalvert (Basketball Diaries e Deuce Wild). Todos eles, cada um à sua maneira, se têm empenhado no fabrico de filmes de culto tendo como base esta temática. Faltam-nos ainda os próximos filmes de Hardwicke para confirmarmos se também ela se posicionará definitivamente neste patamar da produção cinematográfica norte-americana. De qualquer maneira, Treze inscreve-se neste rol. Por muito que se tente evitar a comparação, o filme não deixa de nos transmitir a sensação de que se trata de uma aproximação clean (limpinha) do universo tão bem explorado até às suas últimas consequências e sem condescendência por Larry Clark nas suas obras: ou seja, o retracto de uma adolescência à beira do abismo, em rota de colisão.

Apesar de deixar de lado a lente obscura, como acontece em Clark, e optar antes por um registo de cores fortes e de fontes luminosas (aqui Sunset Boulevard torna-se o cenário ideal pare este filme), a realizadora utiliza todas as outras técnicas recorrentes neste tipo de cinematografia: como o uso da câmara tremula e nervosa (recorrendo, até ao máximo das suas possibilidades, da objectiva manual); a incursão aqui e ali de momentos cuidadosamente preparados do ponto de vista da imagem fotográfica; o ritmo acelerado da composição e transposição das cenas na montagem do filme e finalmente o trabalho de actores suportado na expressão e performance de talentos jovens e desconhecidos.

Paralelismos à parte, Treze é um bom filme. Situa-se num universo em que o essencial passa por uma visão crua da adolescência e, mais do que isso, pela desagregação da relação familiar tradicional. Uma obra surpreendentemente intimista. Para este facto, muito terá contribuído Nikki Reed, uma das interpretes principais do filme cuja participação na escrita do argumento, muito baseada na sua visão autobiográfica, se demonstra aqui decisiva. Sem dúvida que Nikki Reed, com treze anos na altura da produção do filme, providencia uma série de detalhes e nuances que Hardwicke teria alguma dificuldade em compor sozinha de forma tão fidedigna. Por outro lado, uma das grandes bases do filme é, indubitavelmente, a magnífica representação da bela Evan Rachel Wood, impondo-se de forma muito intensa e segura ao longo de todo a sua interpretação como protagonista principal. É ela que confere todo o sentido dramático ao filme. O futuro ditará se estaremos ou não em Treze perante o emergir de uma grande estrela de cinema. A sua interpretação de uma adolescente de 13 anos chamada Tracy descobrindo um mundo completamente novo e sedutor repleto de drogas, sexo e divertimento, sem preocupações, quando inicia uma amizade com a sedutora e problemática Evie Zamora (Nikki Reed) é aqui simplesmente genial e não tenhamos ilusões, a maior parte da força do filme passa por ela. Em termos de casting é inevitável sublinhar o desempenho de Holly Hunter, uma actriz que impõe sempre um registo de elevado nível às suas prestações no grande écran. O seu papel de uma mãe a tentar conciliar o inconciliável no seio de uma família desmembrada da sua estrutura tradicional seria mesmo reconhecido pela academia americana ao nomeá-la para o Oscar de 2002. Holly Hunter estabelece, juntamente com Nikki Reed e Evan Rachel Wood, um triângulo perfeito na composição das personagens motoras do filme. Estamos assim, perante uma obra sem o pretenciosismo artie (artístico) que muitas vezes se aponta ao cinema que trata o tema da adolescência e juventude “problemática” mas que antes suporta toda a sua energia na qualidade das interpretações baseada numa concepção simples do guião e realista das personagens. Quem sabe, a melhor maneira de compreendermos uma certa cultura kinky e kitsh que parece contagiar esta geração que usa o piercing e a parafernália endomentária não só como meio de sedução mas igualmente de afirmação e desafio em relação a um mundo que tudo dá mas que também tudo tira.
Uma nota sobre Catherine Hardwicke
Hardwicke tem um longo trajecto na área da cenografia incluindo títulos recentes como Three Kings ou Vanilla Sky. Entretanto, ainda este ano, deverá estrear como realizadora Lords of Dogtown, projecto cuja direcção chegou a estar entregue a David Fincher (manteve-se ainda assim na produção). Quanto a Treze, o seu primeiro trabalho de realização, é um magnífico exercício de cinema, puro e intransigentemente realista. A obra desencadeou uma curiosa polémica quando se atribuiu uma classificação que interditava o filme aos espectadores com treze anos: recebeu o certificado "R" (interdição a menores de 17 anos). Por cá, ocorreria uma situação insólita semelhante, com o filme a ser classificado para maiores de 16 anos. Catherine Hardwicke tem ainda a particularidade de ser uma das mais recente representantes femininas no universo, ainda muito masculinizado, de directores de cinema de Hollywood.

Tuesday, April 12, 2005

Um filme no limbo das emoções

A vida não é um sonho
(Requiem for a dream)
Realização: Darren Aronofsky
Interpretação: Ellen Burstyn, Jared Leto, Jennifer Connelly
EUA, 2000

Darren Aronofsky provocou sensação em Holywood ao colocar um filme, totalmente independente e de linguagem fora dos requisitos mais convencionais, na senda dos Oscares de 2000 através da nomeação da magnífica prestação da actriz Ellen Burstyn. Houve quem viesse a terreiro afirmar que era a própria Ellen Burstyn, uma actriz prestigiada e respeitada há muito tempo no meio feroz de Holywood (sobretudo desde que ganhara o Oscar em 1974 com Alice Já Não Mora Aqui), quem tinha literalmente empurrado o filme e o seu jovem realizador para este patamar. Mas na verdade, um olhar atento e audaz verifica que não. O filme tem a marca indelével do seu autor. Num certo sentido, como a própria crítica da especialidade acabaria por reconhecer, a própria Ellen Burstyn acabaria por sucumbir ao instinto forte e violento da lente de Aronovsky, atirando-a para uma representação nos limites das suas próprias forças performativas. Talvez por isso, receberia o selo do American Film Institute como um dos 10 do ano.

No entanto, o reconhecimento público não seria assim tão pacífico. Uma boa parte dos media criticaria ferozmente o filme. A CNN, esse gigante global da informação televisiva, chega mesmo a recomendar o não visionamento do filme justificando que o jovem realizador se tinha emaranhado em clichés retóricos sobre a dependência e sobretudo tinha-se deixado levar pelo exagero melodramático e deslumbramento do poder das imagens que ele próprio criara. Não será de estranhar que este Requiem tenha uma melodia visual e conceptual dissonante em relação aos meios situacionistas da sociedade americana. A película transporta consigo uma análise amarga sobre os efeitos nefastos dos media na mente humana, em especial a televisão, no cumprimento de um dos maiores sonhos americanos: a fama (traço evidente na composição da personagem interpretada por Burstyn). Aronofsky tinha conseguido manter-se independente e esse facto já era uma conquista importante.

Torna-se lógico que uma boa parte do peso da polémica sobre o filme reside no próprio tema da dependência. Há quem diga: queres ser polémico? É fácil! Faz uma obra sobre a dependência da droga. Um dos grandes tabus, desde sempre, da América. Mas o filme não se resume a isso. É verdade que tem como base a obra de Hubert Selby Jr, um dos grandes gurus da literatura junkie americana actual, na linha de outros grandes nomes de sempre do género cujas vidas e obras deram no passado momentos cinematográficos significativos: t.c. na ficção científica de Philip K. Dick (Blade Runner e Minoraty Report), no mundo surreal de Hunter S. Thompson (Fear and Loathing in Las Vegas), na perspectiva neo-realista e amargurada de Jim Carrol (Basketball Diaries), isto já para não falar do mais emblemático de todos, o hiper-realista William Burroughs (Drugstore Cowboy e Naked Lunch). É verdade também que o próprio Selby Jr assumiria a escrita do argumento com Aronofsky, acompanhando par e passo o filme e até participando como actor numa pequena cena final (ele é um dos guardas da prisão). No entanto, neste filme verifica-se um profundo cunho pessoal detectável na intensa malha visual e impressionista que o olho clínico de Aronofsky aplica ao filme. A composição dos personagens é muito forte através da explanação dos diálogos de Selby Jr mas que somente ganha força com o enquadramento brilhante de Aronofsky. Aqui convém realçar que não sobressai somente Burstyn, contamos igualmente com os desempenhos seguros de Jared Leto, Jennifer Conely e Marlon Wayans. Aronofsky provava agora, com mais meios é certo, que o reconhecimento artístico do seu primeiro trabalho (Pi), que lhe valera o prémio de Sundance em 1998, não tinha sido em vão. A estética do filme, cuja fotografia de Matthew J. Labique seria premiada, é reconhecidamente influenciada, em momentos pontuais, na de Laranja Mecânica de Kubrick mas esta constatação não será mais do que um sentido tributo de um jovem artista a uma estética visual que começa a ganhar seguidores nos realizadores americanos (uma via que se iniciou através do decano Oliver Stone em Assassinos Natos e que tem como um dos mais recentes exemplos Spun de Akerlund, 2003). É sabido, que este filme é tudo menos concensual. Uma obra que se encerra nas teias da sua própria ambivalência estética e conceptual. Um filme, tal como os seus personagens, no limbo das emoções.

Uma nota sobre Darren Aronofsky
A Vida Não é Um Sonho, trata-se do segundo filme de um dos mais promissores realizadores norte-americanos: Darren Aronofsky. A sua estreia nas longas metragens deu-se com Pi em 1998 valendo-lhe na altura o mais prestigiado prémio do cinema independente americano, o Sundance Festival Award. Pi seria então filmado somente com 60 000 dólares emprestados à família e amigos. Aronofsky gosta de se designar a ele próprio como “ a Brooklyn hip-hop kid”, um puto de rua, marcado pela herança familiar judaica, e cujo passatempo favorito era dividir o seu tempo entre a pintura de graffitis nas estações do metro de Nova-York e as filmagens na Times Square. Mais tarde aluno de Harvard, receberia o reconhecimento internacional com a sua tese final sobre cinema, ganhando mesmo uma bolsa do American Film Institute. Provando-se que dificilmente um realizador na América, por muito independente que seja, se consegue manter fora dos grandes cenários, Aronofsky esteve (ou estará) envolvido recentemente em dois mega projectos holywoodescos como realizador e produtor: em Ronin, a adaptação de uma história da banda-desenhada de Frank Miller (com Robert de Niro à cabeça) e em Batman Day One, um dos mais aguardados blockbusters que tem já a participação confirmada de Eminem e que só recentemente encontraria Christian Bale para a interpretação de Bruce Wayne. Os dois projectos estão encalhados com problemas de produção e não se confirma a sua manutenção em ambos. Pelo meio, aguarda-se a estreia para este ano do seu próximo filme The Fountain com dois dos seus actores favoritos, Ellen Burstyn e Sean Guillete, mas que terá Hugh Jackman e Rachel Weisz nos principais papeis. Um filme de ficção-científica cujo tratamento cinematográfico se prevê mais consentâneo com aquilo que foram as suas duas primeiras obras.

Monday, April 04, 2005

MARLON BRANDO [1924-2004] – O Primeiro dos Jovens Rebeldes

No mês de Abril comemora-se o nascimento de Marlon Brando, para muitos, o maior e mais influente actor americano da sua geração. Nascido a 3 de Abril de 1924, protagonizou ao longo dos seus 80 anos de vida, tanto na vida real como na tela, um papel completamente fora das malhas do círculo convencional. A sua personalidade particularmente rebelde manifestou-se bem cedo quando ainda adolescente foi expulso da escola militar.
Se atendermos à história do cinema de Holywood não será exagerado designar Brando como o primeiro exemplo de uma estirpe de rebeldia representada no celulóide. Mesmo antes de James Dean (que somente se revela com estas características em 1955, quatro anos após Brando) ele terá sido o primeiro dos jovens rebeldes do cinema americano.
Nos anos 50, época que impulsiona este estilo, Brando surge assim como o seu primeiro ícone. Como protagonista, não tem códigos de honra e actua à flor da pele. Segue somente os seus instintos. Este carácter está bem vincado em papeis como o de Stanley Kowalski de Um Eléctrico Chamado Desejo (1951), explorado até ao tutano no de Johnny de O Selvagem (1953) e manuseado refinadamente no de Terry Malloy de Há Lodo no Cais (1953). Até mesmo em Viva Zapata (1952) facilmente se descortina a raiva juvenil na sua composição da postura revolucionária do fora da lei mexicano. Brando tornara-se então a expressão do anti-social. Tornara-se o próprio símbolo da juventude porque lhe transmitia a força necessária para combater uma sociedade desajustada ao seu ritmo. Não deixa de ser irónico que o último suspiro deste elan performativo culmine que um filme dirigido por ele próprio, após a renúncia de Stanley Kubrick: Cinco Anos Depois (1961).

A sua presença no grande écran, por esta altura, impõe-se através de um conjunto de conceitos novos e simples: as suas personificações no écran são jovens, livres, inteligentes e duras. De acessos de humor arrogante, de andar deambulante entre a atitude ora agressiva ora infantil dos personagens, Brando sintetiza uma postura que se vai assumindo como muito americana. Esta postura social viria a ter outros contornos na cultura americana, como por exemplo na literatura, com o eclodir da Geração Beat cuja obra Pela Estrada Fora de Jack Kerouac (de lembrar que foi escrita em 1951 ainda que somente publicada posteriormente em 1957) já identificava esta nova ânsia juvenil americana. A figura do Tough Boy anti-herói que tão bem se encontra interpretada por Brando em O Selvagem é herdeira de um estilo já exteriorizado previamente nos westerns de Ford (com John Wayne a assumir esse papel de líder solitário) ou nos filmes de gangster como Scarface de Howard Hawks (1932). Simplesmente com ele tratou-se de artisticamente transpô-la para o plano estritamente intimista e humanista.
Descrevemos aqui no fundo o Marlon Brando que acabara de se tornar estrela, cuja energia abundante viria a contagiar toda uma geração de actores no futuro (desde de Niro a Edward Norton passando por Rourke e Dillon). Uma energia que somente viria a recuperar em toda a sua plenitude nos finais de 70 com filmes como O Último Tango em Paris, Apocalipse Now ou O Padrinho.
Marlon Brando sobre O Selvagem na sua autobiografia afirma: “Surpreendeu-me que alguém de t-shirt, jeans e blusão de cabedal, de repente, pudesse simbolizar a revolta. No filme há uma cena em que alguém pergunta ao meu personagem contra o quê eu me revoltava ao qual eu respondo «o que é que tens ai para me dar»? No entanto, nenhum de nós envolvidos no filme alguma vez imaginou que tal pudesse a vir a instigar ou encorajara a revolta juvenil na América.”
a.g.

Friday, April 01, 2005

Abril | Ciclo “Gerações Controversas”

07_04:
"O selvagem" de Laslo Benedek

14_04:
"A vida não é um sonho" de Danny Aronofsky

21_04:
"13" de Cathrine Hardwick

28_04:
"Antes do amanhecer" de Richard Linklater

Thursday, March 31, 2005

SEGUNDO MÊS: BALANÇO

A 7.ª à 5.ª cumpriu o seu segundo mês de actividade na produção de ciclos de cinema em Alcobaça. Pela primeira vez, foi possível introduzir um primeiro elemento documental, em forma de folheto de sala, de contextualização do próprio ciclo que neste caso compreendeu a distribuição gratuita do texto Os brasileiros – tempo dos herdeiros do cinema novo. Esta é, aliás, uma rubrica que a 7.ª à 5.ª tem a intenção não só de manter como estimular nas próximas sessões com o objectivo último e ideal da edição de um texto por filme.

Entretanto, as pequenas falhas técnicas, sempre aborrecidas, que tinham atribulado duas das sessões do ciclo inaugural parecem finalmente ultrapassadas permitindo deste modo o estabelecimentos das condições necessárias para o incremento desta iniciativa que se pretende organizada dentro dos parâmetros de acolhimento que o público, as obras e o cinema em geral merecem.

Totalmente consagrado à mais recente filmografia brasileira, este segundo ciclo que dava início às sessões verdadeiramente temáticas, tinha como uma das principais curiosidades a constatação do índice de filiação cinéfila ao evento. Verificou-se então uma pequena variação, esperada até porque o efeito “novidade” vai-se dissipando, mas que ainda assim estabilizou num nível de afluência de público muito bom, ao preencher 157 dos 212 lugares disponíveis para as 4 sessões, o que prova que o projecto tem pernas para andar, constatando-se mesmo valores interessantes de público recorrente. Este dado é importante porque será da capacidade de congregação de um conjunto de público cinéfilo permanente que a 7.ª à 5.ª poderá desenvolver um dos seus grandes objectivos que é à interacção contínua com o público ao nível do debate e da intervenção em torno do cinema.

Contabilizou-se uma adesão crescente ao longo do mês acabando por esgotar na última sessão, como era aliás esperado, com o supra conhecido e discutido “Cidade de Deus”. Não deixa ainda assim de ser significativo que esta sessão tenha esgotado apesar de ocorrer à mesma hora e no mesmo local, ainda que em salas distintas, que um dos mais mediáticos eventos produzidos no Cine-Teatro de Alcobaça dos últimos tempos: a peça de teatro integrada na superprodução das Comemorações do Ano Inesiano “A Castro” de António Ferreira, encenada pelo Grupo Ibérico. Isto prova que a magia e a energia que a 7.ª Arte transmite é inesgotável e que um cinéfilo é sempre um cinéfilo. Assim sendo, haja sempre CINEMA em Alcobaça!

Wednesday, March 23, 2005

Cidade de Deus

Realizador: Fernando Meirelles
Intérpretes: Alexandre Rodrigues, Leandro Firmino da Hora, Seu Jorge, Matheus Nachtergaele, Phellipe Haagensen, Jonathan Haagensen, Douglas Silva, Roberta Rodrigues
Brasil, 2002

Buscapé é um rapaz pobre e muito sensível que cresceu num ambiente bastante violento. Apesar de pensar que tudo e todos estão contra ele, descobre que pode ver a vida com outros olhos: os de um artista. Acidentalmente, torna-se fotógrafo profissional, e começa a sua libertação.

Mas Buscapé não é o verdadeiro protagonista do filme: não é o único que faz a história desenrolar; não é o único que determina os acontecimentos principais. No entanto, não só a sua vida está ligada com os acontecimentos fulcrais da história, como também, é através da sua perspectiva que entendemos a humanidade existente, em um mundo aparentemente condenado por uma violência infinita.

Cidade de Deus é a epopeia de uma humanidade sem disfarce – violenta, sofredora, impiedosa, surpreendentemente solidária, brutal e sanguinária!

CABELEIRA: Alô Berenice. É o seguinte, vou te mandar uma letra invocada agora. Pô mina...já viu falar em amor à primeira vista?
BERENICE: Malandro não ama, malandro só sente desejo.
CABELEIRA: Assim não dá prá conversar...
BERENICE: Malandro não conversa, malandro desenrola uma idéia.
CABELEIRA: Pô! Tudo que eu falo, tu mete a foice!
BERENICE: Malandro não fala, malandro manda uma letra!
CABELEIRA: Vou parar de gastar meu português contigo que tá foda.
BERENICE: Malandro não para, malandro dá um tempo.
CABELEIRA: Falar de amor contigo é barra pesada.
BERENICE: Que amor que nada. Tu tá é de sete-um!
CABELEIRA: É que o otário aqui te ama!

MENINO 1: O negócio é tóchico, tá ligado?
MENINO 2: Tu quer ser traficante, tem que começar de avião, morou?
MENINO 1: Essa onda de avião é roubada. Até pegar consideração para ser vapor, depois segurança e depois gerente, demora a maior etapa.
MENINO 2 : Tu vai fazer como? Tem que esperar eles morrer...
MENINO 1: Tô fora! Vou fazer como o Pequeno fez: tem que passar todo mundo e pronto!

FILÉ COM FRITAS: Meu irmão, eu fumo, eu cheiro, já roubei, já matei... Não sou criança não. Sou sujeito homem.

Tuesday, March 15, 2005

Deus é Brasileiro

Realização: Carlos Diegues
Intérpretes: António Fagundes, Wagner Moura, Paloma Duarte, Bruce Gomlevsky, Stepan Nercessian, Castrinho
Brasil, 2003

Cansado dos erros cometidos pela humanidade, Deus (António Fagundes) resolve tirar umas férias nas estrelas, a fim de descansar dos seus aborrecimentos com o ser humano. Mas, para isso, ele precisa de encontrar um santo que se ocupe dos seus deveres enquanto estiver ausente.

Resolve procurá-lo no Brasil, país tão religioso que, no entanto, nunca teve um santo reconhecido oficialmente. O guia de Deus pelo Brasil será Taoca (Wagner Moura), esperto borracheiro e pescador que vê, nesse encontro inesperado, a oportunidade de resolver os seus problemas materiais. Mais tarde, junta-se-lhes a solitária Madá, uma jovem tomada por uma grande paixão.

Do litoral de Alagoas ao interior de Tocantins, passando por Pernambuco, Taoca, Madá e Deus vivem diferentes aventuras enquanto procuram por Quinca das Mulas, o candidato de Deus a santo.

Wednesday, March 09, 2005

Abril Despedaçado

Realização: Walter Salles
Intérpretes: José Dumont, Rodrigo Santoro, Rita Assemany, Luiz Carlos Vasconcelos, Ravi Ramos Lacerda, Flávia Marco António, Everaldo Pontes, Othon Bastos
Brasil/Suíça/França, 2001

Abril 1910 - Na geografia desértica do sertão brasileiro, uma camisa manchada de sangue balança com o vento. Tonho, filho do meio da família Breves, é impelido pelo pai a vingar a morte do seu irmão mais velho, vítima de uma luta ancestral entre famílias pela posse da terra.

Se cumprir a sua missão, Tonho sabe que a sua vida ficará partida em dois : os 20 anos que ele já viveu, e o pouco tempo que lhe restará para viver. Ele será então perseguido por um membro da família rival, como dita o código da vingança da região. Angustiado pela perspectiva da morte e instigado pelo seu irmão menor, Pacu, Tonho começa a questionar a lógica da violência e da tradição. É quando dois artistas de um pequeno circo itinerante cruzam o seu caminho...

Abril Despedaçado é livremente inspirado no livro homónimo do escritor albanês Ismail Kadaré. A adaptação para o cinema foi realizada por Walter Salles, Sérgio Machado e Karim Aïnouz, e as filmagens aconteceram entre Agosto e Setembro de 2000 nas cidades de Bom Sossego, Caetité e Rio de Contas, interior da Bahia.

Como em Terra Estrangeira e Central do Brasil, Abril Despedaçado reúne no seu elenco actores profissionais e não-profissionais. Na preparação dos actores, Walter Salles contou com a colaboração do director assistente Sérgio Machado e do actor Luiz Carlos Vasconcelos. A direcção de fotografia é de Walter Carvalho e a música de António Pinto, com a colaboração de Ed Côrtes e Beto Villares, e a participação especial de Siba, do conjunto pernambucano Mestre Ambrósio.

www.abrildespedacado.com.br

Wednesday, March 02, 2005

Carandiru

Realização: Hector Babenco
Intérpretes: Luiz Carlos Vasconcelos, Milhem Cortaz, Milton Gonçalves, Ivan de Almeida, Ailton Graça, Maria Luisa Mendonça
Brasil/Argentina, 2003
“Doutor quer ouvir mais uma mentira? Aqui dentro ninguém é culpado.O senhor ainda não percebeu isso?” - Seo Chico (Milton Gonçalves)
“Na cadeia ninguém conhece a moradia da verdade.” - Lula (Dionisio Neto)
“Culpa tem remédio doutor ?” - Peixeira (Milhem Cortaz)
“Se tivesse todo mundo ia querer” - Médico (Luiz Carlos Vasconcelos)
“Aqui só existe uma coisa mais importante que a liberdade. A sobrevivência.”
História já tratada pelos Sepultura no tema "Pavilhão 9", "Carandiru", baseado no livro "Estação Carandiru" de Drauzio Varella, é o relato da experiência profunda e marcante de um médico que não podia voltar as costas à realidade.
Numa cela da Casa de Detenção de São Paulo, o popular Carandiru, dois reclusos (Lula e Peixeira) enfrentam-se num acerto de contas. O clima é tenso. Outro recluso, Nego Preto, espécie de "juíz" para desavenças internas, soluciona o caso em tempo de dar "boas-vindas" ao Médico, recém- chegado e disposto a realizar um trabalho de prevenção à SIDA na penitenciária. O Médico depara-se, no maior presídio da América Latina, com problemas gravíssimos: superlotação, instalações precárias, doenças como tuberculose, leptospirose, caquexia, além de pré-epidemia de SIDA. Os encarcerados lamentam, além da falta de assistência médica, de assistência jurídica.
O Carandiru, com seus mais de sete mil reclusos, constitui um grande desafio para o Doutor recém-chegado. Mas bastam alguns meses de convivência para que ele perceba algo que o transformará: mesmo vivendo numa situação-limite, os internos não são figuras demoníacas. No convívio com os presos que visitam o seu improvisado consultório, o Médico testemunha solidariedade, organização e, acima de tudo, grande disposição de viver.
Oncologista famoso, habituado à mais sofisticada tecnologia médica, o Doutor terá que praticar a sua medicina à moda antiga, com estetoscópio, sensibilidade e muita conversa. O trabalho começa a apresentar resultados e o Médico ganha o respeito da colectividade. Com o respeito, vêm os segredos. As consultas vão além das doenças, pois os detentos começam a narrar histórias de vida. Os encontros na enfermaria transformam-se em "janelas" para o mundo do crime.
Flash backs reconstroem estas narrativas. Zico e Deusdete, amigos inseparáveis na infância e préadolescência, conhecem destino trágico na cadeia (um, alucinado pelo consumo de crack, matará o outro).
O traficante Majestade desfila, com ginga, o seu poder pelo presídio, além de desfrutar do amor das suas duas mulheres, Dalva e Rosirene.
O velho Chico, homem sábio, cultivado na solitária, adora balões e está prestes a ganhar a liberdade e reencontrar os 18 filhos. O "juiz" Nego Preto, líder da massa carcerária, tem tantos problemas para resolver, que o Médico diagnostica seu mal: stress.
O matador Peixeira, com 39 condenações nas costas, passará por ruidosa conversão, tornando-se pastor evangélico. O surfista Ezequiel viverá, no cárcere, a sua ascensão e queda. Os amigos Antonio Carlos e Claudiomiro, assaltantes de bancos, desentender-se-ão por causa da ardilosa e perversa Dina.
O "filósofo" existencialista Sem Chance viverá um romance de contos de fadas com a divina Lady Di. O director da prisão, o Sr. Pires, pisa ovos para administrar a cadeia.
A narrativa do filme arma-se como um quebra-cabeças. Uma história encaixa-se na outra para formar um painel realista da tragédia brasileira. Com o Médico, o espectador acompanha os movimentos quotidianos dos presos, até à eclosão - em 2 de outubro de 1992 - do mais terrível abalo da história da Casa de Detenção de São Paulo (e do Brasil): o Massacre do Carandiru.

Tuesday, March 01, 2005

Os Brasileiros - tempo dos herdeiros do cinema novo

Inicia-se o ciclo Os Brasileiros: Novos rumos do cinema brasileiro. Um conjunto de quatro obras cinematográficas tentaram espelhar a prerrogativa do ciclo do mês de Março que se inscreve no delinear das expressões marcantes do mais recente cinema do Brasil.

Herdeiros, em termos de popularidade e reconhecimento artístico, do movimento do Cinema Novo que marcou a filmografia brasileira até finais dos anos 70 do século XX, com grandes autores como Lima Barreto (O Cangaceiro, 1953) e Oswaldo Sampaio (Sinhá Moça, 1953) ou, para citar os da geração mais recente, Glauber Rocha (Diabo na Terra do Sol, 1964) Ruy Guerra (Os Fuzis, 1964) e Cacá Diegues (A Grande Cidade,1966). Todos eles premiados nos certames mais importantes do cinema e cujo último suspiro terá sido Pixote (1981), obra emblemática do universo cinematográfico brasileiro, marcando a transição do modelo formal e estético do cinema brasileiro e cuja direcção pertence a um dos realizadores aqui representado, Hector Babenco.

Se é verdade que o Cinema Novo, expressão do neo-realismo sul-americano teve como alicerce o cinema independente ou cinema de autor, livre de modelos e da finança imposta pela indústria cinematográfica, muito marcado pela inspiração, é também verdade que essa capacidade criativa incidia em grande parte naquilo que foi designado como estética da fome, violência e sonho, com um cunho fortemente politizado e de sublimação da figura do anti-herói.

A filmografia contemporânea brasileira, bem explorada neste ciclo, remete-nos para um cinema, tal como anteriormente, colado ao espectro social retratando o Brasil nas suas conhecidas contradições vivenciais. No entanto, quer na tensão social e comportamental de A Cidade de Deus de Fernando Meirelles e Carandiru de Hector Babenco ou na violência e sonho de Abril Despedaçado de Walter Salles, dos filmes aqui selecionados talvez o mais ligado à herança do cinema novo, e até mesmo no caso da comédia Deus é Brasileiro dirigida por Carlos Diegues, dirigida num formato muito próximo do televisivo, todos eles trazem consigo, cada um a seu modo, uma interrogação sobre o país e um grau de sofisticação e invenção que colocam a produção contemporânea brasileira num outro patamar.

Em relação ao passado, denota-se à partida uma revolução de suporte, na qual a película, o digital e o vídeo se tornam complementares. O novo rumo do cinema brasileiro parece encontrar uma solução de conformidade entre estética e narrativa, aliando mesmo técnicas como as experimentadas da publicidade e do videoclip ao serviço de uma lente competente e de personalidade. Denota-se a exploração, até exacerbada, de uma cinematografia cheia de luz e cor que culmina naquilo que alguma crítica mais aguada nomeou de cosmética da fome e violência.

Os filmes seleccionados neste ciclo espelham assim a trajectória actual do cinema brasileiro cuja proeminência intelectual é hoje reflexo de óptimas obras, como as quatro aqui incluídas, que apesar de não renegarem o passado herdado no cinema novo de Barreto e Rocha privilegia agora a produção pautada pela violência sensorial, pelo requinte visual e pela velocidade das cenas, recorrendo a texturas ásperas e à estética crua para retratar as histórias de vida do Brasil.

a. g.

Março | Ciclo_"Os Brasileiros"

- Novos rumos do cinema brasileiro

03_03 21:30
Carandiru – Hector Babenco

10_03 21:30
Abril Despedaçado – Walter Salles

17_03 21:30
Deus é Brasileiro – Carlos Diegues

24_03 21:30
Cidade de Deus – Fernando Meirelles

4.ª sessão - ESGOTADA! O PLENO!

A 4.ª sessão, ainda de cariz experimental e última desta primeira selecção de filmes organizada pela 7.ª à 5.ª , esgotou! De facto, não podia ser melhor. A iniciativa congratula-se com o público que acorreu ao Cine-Teatro de Alcobaça tornando possível com a sua comparência assídua estabelecer o pleno: um total de 252 presenças ao longo das quatro noites de cinema.

Finalmente, e para benefício de todos, os problemas de índole técnica foram ultrapassados e o público pode divertir-se de forma confortável e aprazível.

Esta primeira selecção de filmes concluiu assim da melhor forma com a comédia agri-doce Lost in Translation – O Amor é um Lugar Estranho dirigida sob a lente sensível de Sofia Coppola. Um retrato humano sobre as relações afectivas suportadas na amizade estabelecida em redor de circunstâncias pouco comuns.

O balanço deste primeiro mês de vida dificilmente seria melhor. Este facto faz-nos crescer a expectativa quanto ao mês de Março e à introdução do primeiro ciclo “verdadeiramente” temático dedicado aos novos rumos do cinema brasileiro.

É já esta 5.ª Feira a projecção de Carandiru de Hector Babenco e com ele a confirmação ou não da adesão contínua e significativa do espírito cinéfilo de Alcobaça. Será com este primeiro ciclo Os Brasileiros que a iniciativa 7.ª à 5.ª se propõe introduzir alguns elementos adicionais de comunicação sobre o tema, os filmes e os autores das obras em exibição ao longo das próximas quatro semanas.

A própria aceitação que esta iniciativa tem tido encorajam a progressiva introdução de formas distintas de comunicação com o público. Uma semente que se quer plantar no seio dos cinéfilos alcobacense para que no futuro floresça a reflexão e o debate em torno do cinema. Estamos todos de parabéns. Siga o filme! Siga o cinema!
a.g. - m.d.

Monday, February 21, 2005

Lost In Translation – o amor é um lugar estranho

Título original: Lost In Translation
Realização: Sofia Coppola
Intérpretes: Bill Murray, Scarlett Johansson, Giovanni Ribisi, Anna Faris
EUA, 2003

Bob Harris (Bill Murray) e Charlotte (Scarlett Johansson) são dois americanos em Tóquio.

Bob é uma estrela de cinema que está na cidade para gravar um anúncio a um whiskey, enquanto Charlotte é uma jovem que anda a reboque do marido, um fotógrafo viciado em trabalho (Giovanni Ribisi).

Incapazes de dormir, os caminhos de Bob e Charlotte cruzam-se, uma noite, no luxuoso bar do hotel. Este encontro patrocinado pelo acaso torna-se, rapidamente, uma amizade.

Charlotte e Bob aventuram-se por Tóquio, tendo por vezes encontros hilariantes com os seus habitantes para, finalmente, descobrirem uma nova crença nas possibilidades da vida.

Friday, February 18, 2005

3.ª sessão - ESGOTADA!

Como não há duas sem três, a 3.ª sessão dos ciclos organizados pela 7.ª à 5.ª esgotou! Foi com enorme agrado e até alguma surpresa que se verificou a total adesão do público ao evento, provando-se mais uma vez, que temos cinéfilos em Alcobaça.

A organização da sessão obrigou a um pequeno ajuste na distribuição dos lugares da sala, advento ainda da necessidade de contornar algumas limitações que o Pequeno Auditório impõe, facto que levou a que o número de acentos fosse reduzido em 10 lugares ao suprimir-se a fila A.

Esta medida vem de encontro da comodidade de todos uma vez que o preenchimento da referida fila trazia alguns problemas de visualização das películas por parte do público sentado nas últimas filas (sobretudo no que toca à leitura de legendas). Problemas estes que a iniciativa 7.ª à 5.ª tem aproveitado nesta fase, ainda experimental, para os contornar na convicção que tudo em Março estará normalizado na altura do arranque definitivo desta iniciativa com o ciclo dedicado ao cinema brasileiro.

Mais uma vez, estas situações, obrigaram a organização a proceder a uma comunicação antes da projecção do filme, aproveitando-se igualmente para saudar o público que tem acedido ao evento de forma inequívoca e interessada. Têm surgido ainda algumas situações confusas quanto às reservas dos bilhetes-convite onde se verifica que algumas pessoas tem levantado os ingressos de forma tardia (ou seja, em cima do acontecimento ou após a hora de início da sessão).

Esta situação obrigou a organização a estabelecer algumas regras quanto às reservas de entrada para os ciclos: que a partir de agora devem ser levantados somente às 5.ªs Feiras, entre as 20h30 e as 21h15 (caso não o façam o público ficará sujeito à própria lotação do evento).

Nós compreendemos a ansiedade do público, sinónimo aqui também da própria aceitação que as sessões têm tido, mas num esforço de regularização do acesso às mesmas, para satisfação futura de todos, foi necessário estabelecer alguma norma nas entradas.

Quanto à projecção, como já tínhamos mencionado anteriormente, tratava-se do belíssimo filme de Tim Burton: ‘O Grande Peixe’, que nos dá uma perspectiva optimista sobre a vida e onde está patente toda a qualidade cinematográfica do autor cujos universos fantásticos e sombrios têm aqui lugar numa visão bem mais colorida que o costume (um pouco ao jeito de uma outra obra sua anterior, Eduardo Mãos de Tesoura). O público pereceu ter interiorizado bem todo o optimismo e cor do filme quando à saída da sessão eram perceptíveis as suas expressões sorridentes.

Esta sessão faz-nos enunciar algo que a 7.ª à 5.ª acredita convictamente, isto é, no fundo quando há bom cinema, afinal, há [bom] público! Viva a 7.ª Arte!
a.g. - m.d.

Monday, February 14, 2005

O Grande Peixe

Título original: Big Fish
Realização: Tim Burton
Intérpretes: Ewan McGregor, Albert Finney, Billy Crudup, Jessica Lange, Alison Lohman, Helena Bonham Carter, Steve Buscemi, Danny DeVito, Matthew McGrory
EUA, 2003

Edward Bloom (Albert Finney) sempre foi um contador de histórias sobre a sua vida quando era jovem (Ewan McGregor). Foi uma época em que a sua vontade de viajar o levou numa improvável e mítica jornada, de uma pequena cidade no Alabama ao resto do mundo, para depois regressar outra vez. Os seus relatos são contos épicos que envolvem gigantes, lobisomens, uma floresta assombrada, uma bruxa com um olho, cantoras de salão siamesas e, naturalmente, um grande peixe que se recusa a ser apanhado.
Com as suas histórias inacreditáveis, mas mágicas e deliciosas, Bloom encanta quase todos os que encontra, excepto o seu próprio filho, Will (Billy Crudup), que se afasta. Quando Edward adoece, a sua esposa, Sandra (Jessica Lange), vai tentar juntá-los, mas Will vai querer conhecer a "verdadeira" história do seu progenitor. Para tal, irá tentar reconstruir essa vida, entre o pouco que realmente conhece e as lendas e mitos que ouviu toda a sua vida. Ao aprender a separar os factos da ficção, Will vai finalmente compreender os grandes feitos e fracassos da vida do seu enfermo pai. A aventura de uma vida para lá da vida...

Friday, February 11, 2005

2.ª Sessão - ESGOTADA!

Esta segunda sessão tinha como principal curiosidade a confirmação ou não da total ligação do público ao evento mesmo após a ocorrência de alguns problemas técnicos na primeira sessão. Até porque no início da semana tinham chegado ecos de alguma insatisfação em relação à própria produção do evento, com a alusão mesmo a algumas situações inexistentes... A melhor resposta a todas estas dúvidas foi dada pelo próprio público alcobacense que ocorreu à segunda sessão do mesmo modo que a primeira, ou seja, esgotando o Pequeno-Auditório.

Verificou-se que uma parte deste público já tinha comparecido na primeira sessão (talvez se comece aqui a delinear um esboço de fidelidade aos ciclos, contudo ainda é muito cedo para tirar este tipo de conclusões). Constatou-se igualmente a assistência de muitos estreantes e uma camada mais jovem de público que a presente na projecção anterior, facto que não terá sido indiferente o próprio programa da noite que tinha como chamariz o filme Adeus, Lenine! de Wolfgang Becker.

A história do relacionamento de um jovem alemão com a sua mãe e a destes com a revolução socio-cultural que a queda do muro de Berlin provocara na Alemanha oriental. Obra esta que criou sensação nos últimos dois anos e que foi encarada por muitos críticos como um sinal do ressurgimento da vitalidade do cinema alemão (uma posição a discutir quem sabe brevemente neste ou noutro forum).

No entanto, a organização não quis deixar de comunicar à assistência, momentos antes da projecção do filme, o quanto lamentava a ocorrência de problemas técnicos na sessão anterior, lembrando que até Março (altura do ciclo temático Os Brasileiros) as sessões integradas na iniciativa da 7:ª à 5.ª serão necessáriamente experimentais, servindo para testar as condições da sala e dos equipamentos.

Nesta segunda sessão, as condicionantes técnicas negativas ocorridas anteriormente foram ultrapassadas – ainda não totalmente como a organização gostaria mas de forma satisfatória à produção deste tipo de eventos – e o público pôde então assistir tranquilamente ao filme e usufruir da magia do cinema.

Nesta comunicação, a organização não quis também deixar de saudar o espírito cinéfilo do público alcobacense que apesar das contrariedades verificadas na 1.ª sessão comparecia agora em força à segunda, esgotando uma vez mais a sala.

A segunda aposta dos ciclos estava ganha e aguarda-se agora a próxima que terá como atracção o belíssimo filme de Tim Burton, O Grande Peixe, mais uma obra a ver pelos amantes da 7.ª arte. Viva então o cinema!
a.g. - m.d.

Wednesday, February 09, 2005

Adeus Lenine!

Título original: Good bye, Lenin!
Realizador: Wolfgang Becker
Intérpretes: Daniel Brühl, Kathrin Sass, Maria Simon, Chulpan Khamatova, Florian Lukas, Alexander Beyer
EUA, 2003

Outubro de 1989 era uma má altura para ficar em coma, para quem vivesse na Alemanha de Leste - mas é precisamente o que acontece à mãe de Alex (Daniel Brühl), um activista do progresso social. Oito meses depois, para surpresa de todos, Christiane (Katrin Sass) acorda do seu coma. Mas o seu país mudou radicalmente e ela desperta numa Alemanha capitalista.
O seu coração está tão fraco que o menor choque pode levá-la à morte. E afinal, o que poderá ser mais dramático do que a queda do muro e o triunfo do capitalismo sobre o seu país?
Para salvar a mãe, Alex decide ocultar todos os factos políticos, e para isso transforma os 79 metros quadrados do seu apartamento numa colónia de recordações onde a mãe é levada a acreditar que nada mudou na sua ausência.
Numa maravilhosa, comovente e ao mesmo tempo divertida comédia, Wolfgang Becker (Life is all you get) relata a história de um filho que vai até ao limite das suas forças para conseguir o milagre de salvar a sua mãe e fazê-la acreditar que apesar de tudo, Lenine conseguiu realmente vencer!
Aconselhamos: banda sonora da autoria de Yann Tiersen

Friday, February 04, 2005

1.ª Sessão - ESGOTADA!

Ontem (03 de Fev) deu-se o arranque de uma nova corrente de ciclos temáticos de cinema em Alcobaça.

Cumprindo o lema que inspira a iniciativa 7.ª à 5.ª - Tentar o Cinema - a primeira sessão teve lugar no espaço intimista do Pequeno Auditório do Cine-Teatro de Alcobaça, sob os auspícios de uma noite fria, pouco convidativa a saídas nocturnas e à distância do mediatismo do debate político transmitido à mesma hora do evento.

A cidade de Alcobaça provou estar ligada ao cinema e mesmo perante os condicionalismos inerentes à adesão a um evento ainda em fase experimental, esgotou por completo a primeira sessão dando assim início a uma relação cinéfila que se pretende recíproca e prolongada no tempo.

O próprio público fez juz ao espírito do evento ao demonstrar toda a disponibilidade em adaptar-se a algumas das imposições que inesperadamente surgiram ao longo da sessão: sobretudo aquelas ligadas à dificuldade no visionamento da película na íntegra por uma parte do público.

Tratando-se de uma sessão inaugural e de teste das próprias condições de produção do evento, o público encarou naturalmente esta dificuldade e fez vincar toda a sua alma cinéfila ao adaptar-se livremente a esta contrariedade (seja cumprindo o tempo integral da sessão em pé, seja ao sentar-se no chão do auditório). Problema este que a organização obviamente lamenta e que se propôs desde logo a ultrapassar na sessão seguinte.

Quanto ao filme - A Paixão de Cristo - tinha sido escolhido sob a égide do próprio ciclo de abertura, isto é, a mostra de algumas das obras importantes dos últimos anos que, por razões de inexistência de um espaço de projecção comercial de cinema, passaram ao largo do circuito alcobacense, teve o condão de ser o primeiro, muito devido à própria polémica e discussão que provocou a todos os níveis ao longo do ano de 2004 (até em relação à sua própria qualidade artística), demonstrando ser uma aposta ganha uma vez que se depreendeu desde logo que se tratava de uma película que o público queria visionar, até mesmo para criticar.

Faltava, agora, saber se este início tinha sido um mero golpe de sorte, talvez devido à escolha de um filme mediático, ou se se tratava de puro espírito cinéfilo a dinamizar o evento...

a.g. - m.d.

Wednesday, February 02, 2005

A Paixão de Cristo

Título original: The Passion of the Christ
Realização: Mel Gibson
Intérpretes: Jim Caviezel, Maia Morgenstern, Monica Bellucci, Rosalinda Celentano, Sergio Rubini, Ivano Marescotti, Hristo Jivkov, Hristo Naumov Shopov, Mattia Sbragia
EUA, 2004

"Vocês são meus amigos.
Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos."


Este é o relato das últimas 12 horas da vida de Jesus de Nazaré. O filme começa no monte das Oliveiras, para onde Jesus se deslocou para rezar após A Última Ceia, e onde é tentado por Satanás. Traído por Judas, Jesus é preso e levado para o interior das muralhas da cidade de Jerusalém, onde os líderes dos Fariseus o confrontam com acusações de blasfémia e o seu julgamento resulta numa condenação à morte. Jesus é levado perante Pôncio Pilatos, o governador da Palestina, que ouve as acusações que se lhe são levadas pelos seus acusadores.
Percebendo que está no meio de um conflito político, Pilatos recorre ao Rei Herodes, mas este devolve o caso a Pilatos, que dá à multidão a escolher entre Jesus e o criminoso Barrabás. A multidão escolhe libertar Barrabás e condenar Jesus. Este é então entregue aos soldados romanos e flagelado. Após este castigo, Jesus é levado novamente perante Pilatos, irreconhecível. Relutante em o condenar à morte, este apresenta-o à multidão como que a perguntar se "isto não é suficiente?". Não é. Pilatos lava as suas mãos do problema, ordenando aos seus homens para cumprir os desejos da multidão.

Jesus recebe uma cruz e é-lhe ordenado que a carregue pelas ruas de Jerusalém a caminho do Calvário, no Monte de Gólgota. Aí, Jesus é pregado à cruz e tem lugar a sua última tentação: o receio que o seu Pai o tenha abandonado...

O argumento de «The Passion of the Christ» baseia-se em várias fontes, incluindo os diários de St. Anne Catherine Emmerich (1774-1824), uma uma freira que tinha visões da vida de Cristo e escreveu várias profecias, recolhidas no livro "The Dolorous Passion of Our Lord Jesus Christ", e nos Evangelhos do Novo Testamento dos apóstolos: S. João, S. Lucas, S. Marcos e S. Mateus. Como se sabe, as últimas horas de Cristo são narradas por estes de pontos de vista diferentes; por exemplo, em S. Marcos e S. Mateus existem dois julgamentos nocturnos antes do julgamento final de Cristo, enquanto que em S. Lucas há apenas um julgamento, que tem lugar de manhã, e em S. João não há julgamento algum.

A produção teve início a 4 de Novembro de 2002, nas cidades de Matera e Craco (Itália). Matera é, aliás, famosa pela sua antiguidade com cavernas e estruturas que serão semelhantes às que Jesus terá conhecido. Mel Gibson inspirou-se em famosas pinturas, tais como a "Pietá" (de Carracci), "Ecce Homo" (de Antonio Ciseri) e "A Crucificação" (de Matthias Grunewald), para criar alguns dos mais importantes momentos do seu filme, falado em aramaico e latim, que define como "uma história sobre amor, sobre sacrifício, mas também sobre perdão e esperança".

Fonte: www.cinema2000.pt

Tuesday, February 01, 2005

Fevereiro | Ciclo_”Ao Largo...”

Mostra dedicada a algumas das obras importantes dos últimos anos que passaram ao largo do circuito promocional alcobacense.

03_02 | 21:30
A Paixão de Cristo – Mel Gibson

10_02 | 21:30
Adeus, Lenine! – Wolfgang Becker

17_02 | 21:30
O Grande Peixe – Tim Burton

24_02 | 21:30
O Amor é um Lugar Estranho – Sofia Coppola

TENTAR O CINEMA!

7.ª à 5.ª - o regresso dos ciclos temáticos a Alcobaça

O cinema é, por si só, uma tentação! Tentá-lo, nas suas mais variadas formas, deverá ser sempre uma ambição. A partir de 03 de Fevereiro, no Pequeno Auditório do Cine-Teatro de Alcobaça, iniciar-se-á, em circuito extra comercial o regresso de ciclos temáticos de cinema.

Promovido a partir da iniciativa 7.ª à 5.ª a programação e divulgação têm como objectivo primordial levar junto do público um conjunto de obras representativas da produção cinematográfica que fazem parte da história do cinema até aos dias de hoje.

A realização de ciclos e mini-ciclos será produzida abarcando as mais variadas modalidades de referência cinematográficas em formato de curta, média e longa metragem: incluindo desde o cinema de género e o cinema de autor, passando pelas cronologias comemorativas de personalidades e obras até à contextualização das grandes escolas e tendências da produção de cinema ou até mesmo a projecção de filme documentário.

Nunca esquecendo a vertente fundamental da sétima arte que é o entretenimento, a rubrica que agora se inicia, tem um intuito essencialmente pedagógico a partir de uma aproximação que passa pelo estímulo do gosto, contemplação, reflexão e debate em torno dos temas propostos.

alberto guerreiro | milton dias